terça-feira, 20 de junho de 2017

Para fazer Estudos Surdos no Brasil ®


O material aqui exposto é uma parte da pesquisa de mestrado desenvolvida pelo autor desse blog, Ramon Santos de Almeida Linhares. Sendo esse aluno da Pós-graduação de Estudos da Tradução (PEGT) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Esse material tem o presente formato com o objetivo de servir ao I Encontro de Formação dos Centros de Apoio ao Surdo ocorrido em parceria do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) e a SECADI, ambos órgãos do Ministério da Educação (MEC) do Brasil. Dessa forma alguns conteúdos nela expostos são partes de outros estudos e não foram, nesse slide, devidamente assinalados.

O uso não autorizado ou indicando autoria fica passível de classificado como plágio.






























[nesse trecho foram apresentadas obras de artistas surdos
não autorizadas para veiculação nesse espaço]



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM_a vertigem dos homens (Parte VII)

Para não parar de se mover
– Poslúdio –


Porque os homens têm que ser levados ao conhecimento de si próprios, antes de se entregar a Deus. É preciso cortar deles absolutamente toda esperança na carne antes que eles possam ser levados a Deus. Isto é importante em tudo, mas é especialmente importante no salto para o verdadeiro Evangelho de Cristo. Mas o homem crente diz: “Eu amo a Deus desde que eu era pequeno, como posso não conhecê-lo?". Sinceramente foi dito: se vocês dizem que conhecem a Deus e continuam os mesmo, não é real, vocês não o conehcem. Amam apenas a imagem de um Deus criado pela sua própria mente, você amou aquilo que criou. Ainda se alguém nos contasse sobre o Deus verdadeiro, nos diríamos: "Eu nunca poderia amar um Deus como esse!". Se o vermos com corações desejosos de verdade, com bons membros de igreja diremos: "Este não é o meu Deus!", e Ele diria: "Claro que não é, sou o Deus vivo, aquele das Escrituras: o que se fez carne!”.
Por fim, ou melhor, para entendermos que a vida nunca termina, insurgem festivamente nossos companheiros Relógios. Na frente do espaço, sob o foco que inicialmente estava Eduardo, eles voltam a tecer suas ultimas reclamações – o homem está prestes a acordar. No fundo na escuridão, enquanto vemos outro homem abraçando a Deus, os ouvimos.

“_ Transformem-se pela renovação das suas mentes, dos seus modos de entender e pensar. Conheçam a verdade e a verdade os fará livres. Busquem-me, e vocês me encontrarão se sua burca for de todo o coração. Aquele que crê viverá!”

“_ Porque são esses os que me amam de verdade, aqueles que buscam, encontram e guardam meus ensinamentos.” – eles gargalham. “_ E se alguém me amar, o meu Pai, Deus, também o amará. Eu também o amarei e me revelarei todos os dias a ele. E ele entenderá que esta é a eternidade do meu amor, me conhecer e prosseguir em me conhecer!”

Em meio às gargalhadas tudo se escurece, agora por uma ultima e definida vez. Vemos então que se projetam palavras emanadas da mesma voz que nos iniciou nessa empreita para conhecermos a história de Eduardo; um homem que carregava em si o peso de ser a repetição de todos os homens do mundo, um homem da vertigem.

“Não tem haver com se sentir bem.
Não se trata só de um ‘plano maravilhoso’.
Não tem haver com músicas, danças ou reuniões.
Não tem nada haver com esse ou aquele comportamento de moral ou ética.

Tem haver com Jesus ou não-Jesus. Jesus.

Estar perto ou longe.


Vivo ou morto no coração de quem realmente importa. Jesus.”

VERTIGINE HOMINUM_a vertigem dos homens (Parte VI)

Último movimento
– Sobre a escolha[i]


Que o homem atravessa longos períodos de árvore nós já sabíamos, duvidamos mesmo é dos frutos que eles dão. Os que buscam sabem: não se trata do que dissemos ou fizemos, isso tudo é galho. Sempre se tratou daquilo que dessas coisas surgiam. É pelo sabor dos frutos que o Espírito tem provado ao mundo que Ele ainda vive, ardente, no coração daqueles que saltaram da vida para a Vida. Os produtos da Boa Obra não são outros se não os da Regeneração, aqueles que fazem estender sobre os corações dos homens o verdadeiro governo do Cristo ressurreto. Não há Reino de Deus sem Deus, e não há conhecimento de Deus sem um mergulho sincero na profundidade das suas Escrituras – se houverem corações sinceros debruçados sobre o Livro, veremos que só conhecemos as bordas de tudo que pode Deus. Somos lonjura, terras distantes, domínios de outro reino, árvores plantadas longe do Rio, galho seco caído no chão. Sepulturas abertas, encobertas de músicas e palavras bonitas.
Corações “cristãos” endurecidos ao evangelho, ignorantes de Deus; e disso não escapam muitos de nosso lideres. Achamos disfarçadamente que o problema está fora de nosso meio. O não-Jesus que vive nosso país não é culpa dos políticos corruptos, das linhas ocultas de satanismo, do carnaval, da cultura popular ou de qualquer outra coisa. O problema somos nós: os falsos cristãos; é aí que o problema deve ser encontrado no coração confuso daqueles que dizem que O amam e levam sua Luz. Em nada mudamos senão em costumes morais de ordem pública, não conhecemos o evangelho. Assim vazios deixado de evangelho, não há mais nenhum poder em nossas supostas mensagem de vida; recorremos então a todos aqueles pequenos truques de mercado; quando vêem os homens estão dentro da igreja repetindo “eis-me aqui” enquanto na verdade seus corações estão bem longe de lá. Pegamos a transformadora palavra de Deus e a reduzimos a “quatro leis espirituais” e “cinco coisas que Deus quer que você saiba”. E é isso o que chamamos de fruto; trocamos regeneração por “decisionismo”, somos isso: ajuntamento de gente vazia liderada por agitadores cheios de palavras de consolo.
Eis ai a igreja de pé que na verdade está caída: eles negam a suficiência da Escritura, usam de tudo, ciências, técnicas, filosofia; obscurecem a Palavra. São desexperimentados de Deus, só o sabem de palavra alheias. Nada falam sobre o mal do homem, pois nada sabem do regenerador evangelho que é o próprio Jesus Cristo. Indutores de um evangelho de aparências. Desconhecedores do próprio corpo, que é a igreja, lhes faltam de disciplina de amor e compaixão; cultivam o egoísmo, duplicam a solidão. Gente cheia de idéias tortas, mal nutridas na Palavra de Deus. Exatamente, estamos diante de nós mesmos e agora você sabe por que aquele pequeno evangelho que você prega não tem nenhum poder? Porque não é nenhum evangelho. Mas se alguém – não se alguns, mas se alguém – está em Cristo, nova criatura é. O evangelho lhe amanhece como uma primeira luz, seus joelhos se gastão, e só lhe resta conhecer a Cruz, porque se o homem chegou nesse instante da caminhada a cruz já o tem.

Os relógios irrompem o espaço levando Eduardo ao acompanhamento de suas mesmas movimentações circulares. Eles giram até ser possível depositar sobre a mão do homem uma garrafa de bebidas; em meio ao percurso que se acelera ele derrama o líquido sobre si mesmo, como quem se atrapalha ao beber. Ele gargalha da sua própria miséria, novamente se perde em si mesmo. Vemos dois homens entrarem na corrida também com garrafas na mão; Eduardo para tonteando na ponta direita do palco e os homens na esquerda ao fundo.

“_ Ninguém presta nesse mundo!” – grita Eduardo para qualquer um ouvir. “Geral é tudo um grande saco de bosta!” – bêbado não se agüenta e gargalha de si mesmo e de qualquer a quem tenha servido a ofensa.
Os homens, antes ao fundo do nosso palco avançam em direção ao público. Chegam à frente do espaço como se tivessem se posicionado cara a cara como o bêbado, eles nos olham como se fossemos o próprio Eduardo; vinham tirar satisfação.
 “_ Você se ferrar sozinho tudo bem, ô seu babaca, mas atrapalhar a diversão dos outros é muita falta de vergonha na cara!” – diz com ares de autoridade, enquanto o bêbado parece começar a rir novamente.
“_ Presta atenção seu otário! Eu tô falando contigo!” – terminam empurrando o ar como se empurrassem Eduardo pelos ombros. E do outro lado do palco, também de frente para o público, ele sofre a ação. “_ Olha lá, que miserável!” – diz cheio de desdém arrematando a o fim da conversa com um cuspe no chão e o virar das costas.
“_ Bêbado assim só deve ser corno!” – caçoa o outro homem.
Eduardo se levanta transtornado com a precisão da ofensa desse segundo homem; será que todos só de olhar já sabiam? E nesse salto para se por de pé ele já se levanta concentrando toda raiva na obrigação de um soco certeiro lançado na cara do ofensor. O homem cai com a boca sangrando.
“_ Seu merda quem você pensa que é?” – reclama o outro homem.
“_ Ué?” – diz Eduardo cambaleando – “_ Corno, merda, miserável. Todo mundo aqui já me conhece, é? Andaram conversando com minha esposa!” – gargalha Eduardo debruçando o corpo para frente e apoiando as mãos sobre o joelho, curtindo profundamente a lógica do menosprezo que acabara de fazer a si mesmo.
“_ O que você ta pensando, seu merda!” – diz o homem de pé com a mão espalmada no ar, como se no peito de Eduardo, e a outra do lado do corpo já com o punho fechado; ao seu lado, como de frente, o homem tonto e gargalhado novamente sofre a ação.
Logo o homem derrubado pelo soco de Eduardo se levanta e, se adiantando ao colega de pé, quebra-lhe uma garrafa como se na cabeça do bêbado, que cai, mas sangrado e tonto insiste em se levantar. Os homens insistem em socar o ar a sua frente e Eduardo, também de frente para nós, se soca e rasga suas roupas – sempre foi dessa maneira, e isso, ali na vertigem de sua consciência se fazia mais obvio, era Eduardo que fazia isso tudo consigo mesmo. A pesar de tudo nosso protagonista permanece de pé, ofegante. Com o aumentar da sua dor, a escuridão lhe cresce ao redor, engolindo com ela os seus agressores. Apenas uma luz a pino nos permite ver Eduardo mergulhado pela escuridão de um grande palco cheio de nada. Vemos bem, ele transpira, tem as roupas rasgadas, algumas manchas roxas no rosto, e sangue respingado pelo corpo que soluça. Um sorriso leve. Sangue escorrido de sua boca, gargalhadas de um choro profundo e desesperado buscava lugar no seu rosto. Um homem de pé, ameaçando em suas dores e agonias; em uma queda invisível que só ele pode ver. O silêncio escora seu corpo; o ar pesa. Vemos a vida lhe escapando pelos poros. Sabíamos bem que ele não buscava nada além de si mesmo, uma busca que o levara a se encontrar com a profundidade de seu próprio vazio. Esse homem, envolvido de escuridão e pelas palavras duras de sua própria consciência, é matéria final do abandono.
No seu interior ele acabara de visitar lembranças cobertas de limo – experimentadas ou inventadas, ele não sabia ao certo. Seu corpo fraqueja e seus músculos desarmam-se aos poucos, quando dois fortes homens roupas sérias rompem o espaço em direção a Eduardo, e o seguram quase no ar. Junto com eles vem luz suficiente para iluminar o palco. E assim, vemos um terceiro homem, simples, mas formalmente vertido, seguindo a agressiva dupla. Na força desse ímpeto de avanço, os dois homens agarram Eduardo pelos braços e o arrastam brevemente, logo o lançando do outro lado do palco; o impacto do corpo ao chão lhe faz vomitar.
“_ Seu merda, desgraçado, filho da...”  – interrompe o homem a si mesmo, tomado de nojo e desdém pelo homem caído, surrado e agora vomitando. Virando o rosto e tomando ar em uma região não afetada pelo mau cheiro de Eduardo o homem prossegue com veemência. “– E vê se não aparece nunca mais por aqui! Seu merda, corno!”.
            Os três algozes abandonam Eduardo e o espaço, ambos transformados pela violência e pelas marcas feitas no, caído e agonizante, corpo que enfim se encontra vertiginosamente lúcido em sua própria dor. Caído da ponte sem apoio que ele mesmo construiu, o homem parecia se esforçar para levantar, mas um misto de medo e insegurança o lembrava que há muito tempo ele não tinha compromisso algum com qualquer postura de elevação. Ele ainda ria um choro confuso, e sob o som do seu lamento vemos cada um dos outros personagens de nossa história de agregarem as costas de Eduardo, ao fundo ele compõem um mesmo corpo com o homem. Do lado oposto vemos Deus, mais uma vez ele está lá; aliás Ele nunca deixou de estar, mas agora se apresentaria pessoalmente pelas vias de um Espírito, que de tão Santo, fazia tudo se mostrar. As costas desse homem é tomada de luz e das imagens de uma amor jamais visto. Ele falará com o homem sobre a forma de uma canção, seu amor se fará música e Ele mesmo, mais do que palavras mortas.

“_ Você nunca mais falou comigo, nem um simples... “Obrigado porque hoje eu tenho vida”. Na verdade eu sinto falta da sua voz. Quantas vezes você veio a mim e eu estive sempre te escutando, te ajudando, te dando força?”

“_ Até parece que você se importa. Esse é seu plano maravilhoso: que eu sofra? Que eu seja mais um dos seus vasos de desonra?” – disse o homem tomado de lágrimas e dor. “_ Estou cansado e não tenho motivos pra conversar, nem com você nem com ninguém.” – e sua voz reafirmava o peso do que estava falando. “Por favor, fica quieto. Para de falar comigo. Vai embora!” – abaixando a cabeça, Eduardo pensava concluído.

“_ Na verdade eu gosto muito de você... você anda longe, anda triste, tão sozinho. Na verdade você não passa de um menino tentando se encontrar.” – cantou Deus que ainda lhe insistia a consciência.

“_ Não fale assim comigo!” – disse tentando coragem no falar. “_ Eu cresci, sou homem e sei muito bem o que quero!” – complementou ainda, se surpreendendo como quem vira uma esquina e se depara com a falta de verdade do que acabara de dizer; seus olhos se perdiam no ar. Então ele assume: “_ Quero minha vida e não a sua!” – e nessas palavras não há distinção entre audácia e dor.

“_ Triste, eu não quero ver você assim tão triste... mas longe de mim só vai ser triste. Só chamar que eu vou correndo te encontrar...” – ainda cantava o Espírito de Deus com entusiasmo e dedicação na direção do homem.

“_ Vem, então!” – disse o homem parecendo se render. “Não! É melhor não ser assim!” – concluiu voltando com a palavra, e enchendo-se mais ainda de dúvidas. “_ Não suporto saber o quanto você me ama. Seu amor me envergonha! Sou obrigado a mudar tudo.”
“_ Ainda não sei se quero!” – dizem todos em uníssono com Eduardo.
           
            “_ Sei que aqui é sufocado, mas eu agüento. Muito disso tudo é até dispensável, mas eu não consigo largar. Acho que sou feliz por aqui!” – complementa Eduardo de própria voz.

“_ Quando você vai voltar pra mi?” – afirma Deus com um som aquecido de voz. “_ Estou te esperando... volta logo que o tempo esta findando. cristo volta logo e não há outra chance.” – termina o Espírito lhe estendendo as mãos.

“_ Para de falar comigo, por favor!” – diz o homem como se pudesse, em seu desalento, mandar em Deus. “_ Eu não quero! Eu não mereço!” – tenta dizer em meio a soluços e lagrimas. Uma pessoa, na multidão recuada em Eduardo repete: “Eu não quero!”. E nosso protagonista o continua.

“_Você não pode me amar assim! Você não pode me amar assim!” – persistia, na verdade, para convencer a si mesmo.

“_ Filho tanta coisa pra dizer... Filho eu tenho um presente pra você... Volta filho... é verdade eu gosto muito de você.” – e terminado de lhe cantar essas coisas, Deus se aproxima de Eduardo; que se assusta recuando.

“_ Eu sei. Conheço bem o seu amor e sei o que ele pode fazer!” – palavras lhe saem enquanto balança a cabeça em negação. “_ Mas eu não quero!”

Um a um, cada personagem atrás do homem diz o mesmo e aos poucos eles recuam deixando o palco, o próprio Eduardo se põe de pé, olha para trás vendo a multidão que se espalha em muitas direções e olha para Deus que ainda está de braços abertos, e por fim ele nos parece já ter escolhido, o vemos acompanhar a multidão daqueles que na beira do trampolim desistiram de pular. Sentiam-se tontos pela altura onde Deus levantara sua consciência, tiveram medo do que viram por sobre suas próprias vidas. Colocaram-se diante da eternidade do amor de Deus que transbordava na Cruz e na redenção do Cristo, elevaram-se e por fim o abandonaram por medo da transformação.
As luzes abandonavam o espaço na companhia daqueles que tomados pela consciência obscura de suas humanidades escolheram negar, mesmo que por enquanto, qualquer tipo de vida que não fossem as suas próprias. No quase apagar do palco, no fim daquilo que nossos olhos alcançam, vemos então um homem sair do meio da multidão, como muita veemência ele se lança com um forte impacto nos braços do Espírito de Deus – ouvimos um choro profundo que parecia vir de um poço escuro; em meio as luzes completamente apagada sabemos que era Antonio, enfim ele escolhera dizer “sim”. Ele se lembrou das coisas que o próprio Deus já havia lhe dito enquanto ele fingia não ouvir; teve fé e saltou para a morte que, enfim, trouxe a Vida do Cristo para o vazio que tinha exatamente o tamanho que o cabia. Sem facilidade alguma em poucos anos veremos um homem curado de si, profundamente experimentado de Deus, alguém disposto a fazer obras ainda maiores, um grande líder – como seu coração sempre ardeu querer, mas que não sabia como. Ele será pastor, não de título mais de alma. Alguém muito diferente do comum, pois viverá um Evangelho menos amontoado de palavras. Seu coração não queimará mais por atenção e platéias, mas por outros corações. E talvez um desses corações possa ser o meu ou o seu – e ainda até mesmo o de um antigo melhor amigo, aparentemente, esquecido no passado.



[i] Trecho inicial elaborado com base na leitura de mensagens do Pr. Paul Washer. E O dialogo entre o Espírito de Deus e o homem faz uso integral da canção “De Deus” de composição de Daniela Araújo.

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte V)

Quarto movimento
– A vida do outro lado do espelho –


Muitos amigados do Evangelho de Cristo se achegam pelo medo de quem realmente são, desejam o plano maravilhoso de Deus para suas vidas tanto quanto ao próprio Deus. E por quanto se puder imaginar a tensão dos homens, ainda muito pouco se compreenderá sobre os seus medos; nem eles mesmos os conhecem, pois inventaram um mundo inteiro para se privar de olhar cada um em seus próprios olhos. E de todas as idéias que tentam escapar desse engano vemos a veemência do discurso sobre a coragem. Esse é sem dúvidas um artifício de nossa humanidade para sobrepormos nossas próprias limitações em nome de um desejo tornado em obstinação. Mas a sobreposição de medos, por si só, não é avanço algum na direção consciente de Deus, é só distanciamento de nós mesmo, um modo de assumirmos nossa constante diferença e instabilidade; um passo de avanço que pode ser dado para qualquer direção, inclusive para trás.
Chega a um momento da vida adulta em que a consciência de que somos incluídos por muitos mundos nos toma para uma densa trama de negociações – e quem tiver sido criado nos limites de igrejas fechadas em palavras ocas, acaba por entrar em desvantagem nesse jogo. Descobre-se, primeiro, que nem tudo é religião, existem muitos outros pontos de vista menos rígidos como os da igreja; existe muita gente sendo feliz em outros lugares, são “tementes”, não negam a Deus, e são corajosos em não se envolverem nos pesados predicados da religião. Depois, maravilha-se com as palavras cheias de vigor ditas pelo mundo, muitos nunca ouviram tanta coerência entre vida e fala nas igrejas de onde vieram; e nisto muitos são ganhos: na negação das igrejas em reconhecer que as palavras do próprio Cristo só eram cheias da Vida, porque falavam de um Deus experimentado – nas qualidades de homem, de Deus despido de Glória, ele buscou conhecer ao Pai e se alimentar de sua vontade.
Mesmo para o Cristo se tratou de escolha e permanência, ele resistiu para nos colocar de frente para a possibilidade de também suportarmos. Aqueles que já estiveram com Deus sabem bem disso, e na crença de se fazerem “justos” na "coragem" de assumir seu desejo, mesmo assim eles ainda são cautelosos – comem o infinito como quem come farinha, com cuidado para não respirar muito forte e ver todo o futuro que tanto desejam se espalhar pelo ar. Esse é mais uma vez o caso do nosso ator principal, ele degusta prazerosamente a ideia de ter total domínio sobre si. Eduardo não entendia que a liberdade de sua escolha nascia da consciência de onde ele iria se ater. Ele escolheu se afixar a si mesmo, se prender na luta pelo preenchimento de tudo que lhe faltava – achava se conhecer de próprios olhos, mas era cego e não sabia.

Os Relógios finalmente demonstram alguma reação ao casal apaixonado a frente do palco, e se juntam a eles os levando a uma dança que nada mais é do que a maquinagem do tempo que escorria por entre as escolhas daquele apaixonado par. O primeiro movimento importante nessa ciranda é o de Eduardo e Érica correndo, como quem brincam, segurando garrafas de bebida na mão. Um dos Relógios tira uma grade toalha de piquenique do boldo onde antes o tecido parecia ser apena um lenço quadriculado, ele estende no chão um pouco distante de onde eles estão. As imagens de um parque movimentado se projetam sobre eles. O casal logo é levado a se sentarem no quadriculado desse espaço no chão, eles riem um sorriso que no rosto de Érica aos poucos se desfaz, ela aparenta chateação, eles parecem discutir. Ela tem a cabeça baixa, até que o rapaz a toca no ombro com ternura e lhe sorri, ela sorri de volta e eles se abraçam. Nesse mesmo abraço, Eduardo leva o corpo de Érica a se deitar no chão, ele debruça seu tronco sobre o dela. As projeções que os sobrepõem se tornam de carros avançados em uma movimentada via escura, e entre essas luzes vemos um letreiro dito: Motel. Todas as luzes, então dão lugar a um lençol de escuridão que cobre o palco, mas que sem demora se vai como uma nuvem passageira frente ao sol. Eduardo e Érica então em pontos diferentes do palco, ela veste um lindo vestido florido que lhe expõe os joelhos, seu rodado se ajusta bem ao tronco valorizando o belo busto da moça, e ele usa camiseta com calça jeans e um sapatênis, seu jeito despojado encantava Érica, que, orgulhosamente, já tinha influenciado em muito seu modo de vestir (ela sempre dizia que não havia graça nenhuma e homens perfeitos, “Se fossem prontos,” – ela caçoava com as amigas – “que função nós teríamos na vida deles?”).
Eles se aproximam, ela lhe fixa os olhos e circula levemente as mãos sobre a barriga, que parece diferente. O rosto de Eduardo que sorria dá lugar uma expressão de susto, mas isso não dura muito tempo, pois dando uma volta rápida no espaço o homem gargalha com as mãos na cabeça, não se contendo de felicidade. Sem comemorações demoradas, Eduardo se volta para moça, e de joelho a sua frente beijar sua barriga. Um dos Relógios se aproxima tirando uma pequena caixa de jóia do bolso e a colocando sobre a mão aberta do rapaz que e então a oferece aberta para Érica; agora ela se assusta. Sacode as mãos e eufórica lacrimeja dando pequenos saltinhos no mesmo lugar; como quem parece segurar as lágrimas ela estende a mão em sinal de aceite, ele lhe põe o anel na mão direita. Sem demora, um dos relógios lhe coloca uma grinalda enquanto o outro lhe traz outra aliança que ela coloca na mão esquerda de Eduardo, e em seguida ele troca o anel da mão direita para a esquerda de Érica. Ele beija sua testa, ela sorri e pula no seu colo. Ele a gira pelo palco, o som das suas gargalhadas enche o lugar.
Subitamente Érica sai do colo do rapaz tirando a grinalda e lançando-a longe. Empurra com muita força o marido para distante dela. Movida de raiva tira a aliança do dedo e joga sobre o homem, que permanece se controlando. Já não há mais imagem alguma se projetando sobre eles, apenas uma luz muito fraca que ilumina parte do palco. Podemos ver os Relógios, assustados com os gritos, se retirarem para observarem escondidos nessa parte não iluminada do palco.
            “_ Seu merda, será que você não entende?” – esbravejou Érica como um bicho. “_ Depois de tudo, quem não quer sou eu!”. – disse deixando o marido ver todo ódio que brilhava em seus olhos.
A raiva serrava a boca e os olhos de Eduardo, quando só uma respiração cansada lhe fez uma pequena abertura, víamos escorrer dali todo silêncio que lhe envolvia o coração – logo as palavras chegariam até os lábios aparentemente descontraídos.
            “_ É sempre assim, eu falo e você fica ai quieto!” – avançou Érica com a voz e o corpo. “_ Agora, eu sou a maluca que ta inventando historia, e você o bonzinho!” – disse e aquietou-se esperando alguma resposta. “_ diz alguma coisa. Seu merda, fala!” – insistiu de vez, enquanto socava os peitos do marido que permanecia fechado como uma pedra.
Até que ele lhe segurou a mão. Olhou nos olhos dela como quem tem duas laminas no lugar dos olhos; nesse instante ela já a dispersava e não tinha porque continuar calado.
“_ Sua vagabunda! O que mais você quer, eu não te dei tudo? Eu não estou aqui?” – berrou Eduardo que de tão possuído de raiva lhe lançava Palavras e salivas; ele a sacudia como quem quisesse que a ficha caísse em uma maquina emperrada.
“_ Tudo o que?” – ela berrou como que quisesse ser escutada pelo mundo. “_ Você não é homem, seu merda! E aquele seu amiguinho escroto, pensa que eu não vejo como ele te olha!” – insinuo maldosamente sobre um assunto que Eduardo conhecia, mas nunca quis se dedicar. “_ Você não é homem! Você não me sacia!” – gritou ainda mais alto, com desdém público de seu marido. Ainda segui em gargalhada, desesperadas e leves por ter dito o que pensava poder feri-lo.
“_ Quando eu tinha dinheiro pra bancar seus caprichos, ai sim, eu era homem!” – gritou a ponte de lhe descer com força a mão espalmada que já estava erguida no ar.
“_ Homem de verdade é uma coisa que você nunca foi!” – ela diz ali, debaixo da mão estendida, lhe penetrando um rosto cheio de desprezo e coragem. “_ Você é igual ao seu pai, um fracassado! Nunca foi homem suficiente para mim!” – riu se distanciando. “_ Você era só uma oportunidade de crescer na vida! Nem sei se eu já te amei de verdade!”
“_ Como é?” – indagou Eduardo finalmente assumindo o sentido daquilo que ele soube desde o primeiro instante.
“_ Você não entendeu, meu filho? Você é corno!” – insinuou a moça apontando para a própria barriga enquanto sustentava no rosto uma sínica expressão de dúvida.
“_ Sua vagabunda!” – rugiu Eduardo em direção a esposa sem menor cautela com sua situação. Ele lha agarrou pelos braços, os torcendo e nessa força a arrastou por pouco metros para trás; em uma das mãos concentrou todo seu ódio e deixou tudo descarregar em uma grande tapa no rosto de Érica. Ela foi lançada para longe, a víamos caída com as mãos na barriga gemendo não só pela bofetada, mas pelo recebimento de toda a raiva que ela mesma plantou no marido.
“_ Seu covarde! Tá vendo o que você fez! Merda!” – diz voltando-se para si e ainda contorcendo de dor. “_ Liga pra alguém! Faz alguma coisa!” - berra a mulher para o marido que sem reação obedece.

A luz lhes é tomada. Vemos a silueta de Eduardo tentando levantar Érica em meio a toda escuridão que eles mesmos produziram. E ainda observamos surgir sobre suas cabeças às imagens de uma ultrassonografia, ouvimos o coração desse bebê. Escutamos rapidamente o crescer e apagar dos sons de uma sirene. Seguimos reconhecendo a voz de um homem falando em meio ao escuro.
“_ Sr. Eduardo? Você é o Eduardo que estava acompanhando as Sr. Érica, correto? Felizmente,” – pausa a voz em um suspiro – “sua esposa está bem. Mas seu filho não resistiu. Meus pêsames!”
Brevemente as luzes se abrem e vemos Érica cruzar o palco segurando malas. Eduardo a observa atônito, e com ela as luzes novamente se vão.

“_ Obrigado Deus,” – diz o homem para o céu com sarcasmo – “pelos seus planos maravilhosos na minha vida! Valeu!” – diz saindo do espaço. “Mas que merda de vida!”

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte IV)

Terceiro movimento
– Tipo, nada haver –


Dizem ser comum a juventude de um rapaz cristão alguns quase-desvios. O que pouco se ouve hoje em nossas igrejas é que não se pode estar quase na presença de Deus. Sabemos, mas fingimos que não, a mornidão provoca náuseas em Deus. Alguém uma vez disse, e até escreveu na bíblia, que deveríamos nos afastar inclusive daquilo que nos parecer incerto, ele chamou isso fugir de aparência do mal. Mas preferindo estar longe, seguimos maquiando aquilo que tem uma cara muito sinistra. Dizemos: “Nada haver, isso! Nada haver aquilo!” E na verdade, se nos aprofundarmos mais e mais de Deus veremos mesmo que muita coisa é só religiosidade e não tem nada haver mesmo. Deus vê o coração, diz o profeta Samuel, não vê como o homem vê. Deus não tem problemas com o corpo do homem, nem com bebidas, músicas, danças, roupas, lugares, pessoas; quem carrega esses problemas somos nós. São os nossos corações que não sabem valorar as coisas pelas lógicas dos olhos de Deus. Somos nós que não nos renovamos pela transformação das nossas mentes, preferimos quase crer, quase seguir, quase ser salvo, e isso bem que seria o suficiente, é claro, se houvesse uma quase-Eternidade um e um quase-Deus.

            “_ Não sei se foi uma boa idéia vir até aqui!” – Eduardo gritou no ouvido do amigo, pelo som alto que os abafava a fala.
            “_ Que isso cara, desencana.” – afirmou Antonio dando um copo de uma bebida azul ao amigo. - “Eu também sou crente, lembra, pecado é se embriagar, não é beber. Vamos agitar, pô!” – disse dando uma dançadinha descompassada e aproximando a bebida da boca, mas não lhe dando grande golada, parecia fingir beber e isso era um pouco ridículo para Eduardo. “Aproveita, brother, você é um cara bonitão, tá solteiro.” – riu balançando o obro do amigo como se novamente o mandasse agitar – “E falando nisso, se liga quem tá vindo lá!” – diz apontando para Érica que se aproximava com um vestido azul que lhe vestia bem, mas cobria pouco; claramente ela estava em boa concordância com o lugar.
            “_ E ai chefinhos, como vai a noite de vocês?” – brinca querendo ser simpática, ou mais que isso.
            “_ Chata, até você chegar.” – sorri Antonio dando um abraço na moça e continuando o tom de brincadeira.
            “_ Olá Srta. Érica. Tudo bem!” – falou rapidamente Eduardo, tentando alguma formalidade sem saber muito bem porquê.

            Ela sorri, ele retribui com um tencionar sem jeito do canto da boca. Atitudes inesperadas podem ocorrer em momentos como esse – muita coisa esta sendo dita nesse instante. Para moça, aquele não era um lugar de cenas em câmera lenta e tão pouco de se encabular feito adolescentes; para ele, ela só era linda e isso já era o suficiente para lhe atar a atenção – eles eram adultos e sabiam bem o que queriam, e isso justamente foi o que fez esse pequeno cortejo não durar muito. Abruptamente Érica rompe qualquer etiqueta descabida e beija a bochecha do rapaz, muito próximo ao canto de sua boca; rouba-lhe o corpo da mão e Eduardo que se vê em um misto de susto e vaidade provocados pela intensidade do interesse daquela belíssima mulher que, enquanto bebe seu drinque roubado, parece propor que dancem juntos. Logo chega outra mulher muito bonita, que parece acompanhar Érica, ela se junta a dança e agrega mais ostentação na importância que já estavam lhe dando. “Como poderia ser desejado por duas mulheres tão bonitas?”, se perguntava Eduardo quase agradecendo a Deus por tudo isso.
Mas assim vestindo-se de luzes coloridas e agitadas, aquele espaço sufocante transpirava o rapaz, e ele achava flutuar. Eduardo morria lentamente de ter mil pássaros no peito. Sua liberdade se multiplicava no interior do seu fôlego e lhe retirava o ar. Ele morria enquanto se enchia de alegria aparente – tudo era só impressão, pois por fazer uso do desvio daqueles pássaros nos olhos, nada lhe chegava às vistas como verdade. Olhando a sua volta via a dança lhes crescer por dentro. Não há porque haver fingimento no levantar dos copos, agora eles bebem e se entregam as totalidades do instante. Todos na festa parecem conectados nessa mesma intenção. Dançam e cantam juntos varias músicas do momento – todos parecem se comportar como conhecidos. Era tão agitado quanto o culto de jovens da sua igreja. Eduardo sabia bem: ali existe um culto, para quem não sabe o propósito de um ajuntamento que verdadeiramente deseja a Deus, não há diferença, pois culto não necessariamente cultiva Deus, seja dentro ou fora das igrejas. Eles se saciam no desvio da verdadeira falta, acham se encontrar, fabricam felicidades em copos translúcidos e, com as mentes escorridas, louvam a brevidade da vida na exaltação disfarçada dos seus próprios nomes – “exaltados sejamos, e estamos sendo, nós mesmos!”, isso é o que realmente dizem.

            Para não nos esquecermos da realidade imaginária que habitamos junto com nosso confuso protagonista, retornam ao espaço os Relógios, que ao chegarem se admiram com o estado de Eduardo e, mais ainda, com as belas mulheres que o cerca. Respiram fundo e seguem abandonando o ar com desistência enquanto balançam a cabeça em reprovação a tudo isso. Tomam impulso e correm ao redor de todos, e aos poucos outros se adicionam a corrida e logo saem em varias direções; com eles a música e as luzes também se esvaem e só Eduardo e Érica permanecem no centro dessa roda, se movendo, como se ainda ouvissem música. Eles dançam e transitam escorregadiamente para uma caminhada normal, andam como se vissem caminhando pela rua, trocando assuntos engraçados, vendo vitrines, riem e em um movimento rápido Eduardo levanta e gira Érica no ar, e quando a traz de volta faz questão de não distanciá-la do seu corpo. Seus olhos encontram-se atentos um ao outro, e seus braços se cruzam num abraço tão forte onde eles pareciam querer se misturar. Os relógios de longe, observam sem muita reação.

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte III)

– Segundo movimento –
Escolhidos por Deus,
mas consagrados ao mundo[i]




Um abraço economiza o transtorno de excessivas palavras, enquanto o excesso de palavras finge desprecisar de qualquer tipo de abraço. Estava ali, no histórico de muitas palavras, sendo anunciado no silêncio da entrega de um homem, o ápice do que enfim nos precisava ser dito. Seus olhos eram como de um animal que na ciência da véspera de sua morte se fazia mudo, alguém sem culpa aceitou o lugar de todos aqueles que haviam sido lhe dado. Esse homem era toda a imensidão do silêncio abastecido de abandono. Foi estendido e derramado, desamparado por causa de toda podridão que se fez responsável, e pela sua obediência, nos evolveu no calor de sua luz; e chamou isso de graça – porque não necessitava que seus herdeiros escolhessem aceita-lo, mas sim que soubesse e admitissem essa nova filiação para com a eternidade do seu amor. Ele era, por inteiro, a chave dessa eternidade. Seu corpo esgotado e deitado sobre a madeira estava sendo pregado, e pelas vias de nossas ignorâncias a Vontade se cumpria – fomos odiosos e não suportávamos viver, si quer, próximos ao seu mover; mais uma vez, entre muitas, intentávamos pará-lo. Entretanto, escondido nas entrelinhas do seu silêncio habitavam os gritos de muitos. Naquele instante, era ele mesmo um berro mudo de amor, um escandaloso anúncio das Verdades antes prometidas, mas negligenciadas por muitos. Ele era a Verdade, chave que se torcia na maçaneta das nossas celas, nos mostrou o lugar onde nascemos por causa da desordem do primeiro homem, mas também apontou onde renasceríamos. Somos maravilhados em seu amor, mas, ainda tementes, nos escondemos e escolhemos viver as superfícies de suas conquistas. Olhe bem e você verá, ainda estamos aqui, envolvidos do lodo e das sombras de desacertos que já não existem mais desde a Cruz? (Dizemos circularmente: “—Seu amanhecer põe glória demais nos meus olhos e eu não quero acordar! O cinzento das tardes daqui me empobrece a mente, mas sempre foi assim, e isso até me parece bom, o suficiente, pra ser feliz!”). Assim, nos continuamos na felicidade de uma liberdade que não experimentamos se não pela alegria de sabê-la possivelmente real. (“—Obrigado pelas Boas Novas, – dizemos meio sem graça. – “mas sua felicidade é muito difícil, estou bem onde estou! ‘Tamu’ junto!”). Recorremos incessantemente a esses desvios, quer saibamos ou não que o fazemos. Pois, quando um pecado se realiza, não ocorre na força de algo fora de nós nos induzindo a isso – a tentação é uma oferta. O desvio existe primeiro no coração, na natureza de um ser que já nasce nessas condições[ii] – e ali permanece, pois esse acredita tão fielmente na impossibilidade de mudar, tanto quanto credita fé no Deus para quem costuma cantar.
Contudo, mesmo que tais repetições sejam justamente aquilo que mais lhes parece ser vida, eles precisam saber como levar suas vidas para além das mesmices das coisas desse mundo. É por permitir que a tentação nos habite, e não por nos sentirmos atraídos por ela, que nos afastamos de Deus; eles precisam saber. Afinal de contas se o conselho é para que resistamos, quer dizer que em algum grau já nos atraímos, no entanto, que, por mais, não nos entregamos.
Essa exterioridade a quem culpamos é apenas um canal para concretizarmos um desejo que já habitávamos. Não se trata das coisas do mundo, mas de nós mesmo e de nossas partes como coisa do mundo. Somos pegos na dobra, numa curva que nos leva de frente para quem somo de verdade, ali não há saída. E você se vê dizendo: assim eu quis fazer! E por isso tomando luz daquilo que se pode vir a ser. Eduardo entendeu isso em sua juventude. E viu que arrependimento nada tinha haver com ressentimento, tristeza ou culpa. Ele viu pregado na cruz seus dolorosos defeitos e todos os acontecimentos do qual ele sentia vergonha – e insistia em esconder até de si mesmo. E por revelação, pois não há outro modo de conhecer a Deus, soube que isso não pertencia mais a ele, mas ao Filho sacrificado. Ele sentiu uma estranha dor em se despegar de sua morte pelo caminho da morte de Outro. Mas, estando cada coisa onde agora estavam, Deus lhe disse que não existia homem no mundo com autorização para retirá-las de lá; e por isso, por saudade da dor como motivo de vida, eles começaram a inventar seus próprios grilhões.
Eduardo tinha seu coração acometido de lodo, e sua boca até então usada de gafanhotos. Ele se vestia de palavras fracas, mas amava ser deste modo – tinha medo de se encontrar com Deus mesmo não estando mais dentro do Jardim – dizem que depois de Jesus ele anda por todos os lugares, por ai acessível à sinceridade dos corações. Então querer de verdade era perigoso.
Nosso protagonista até se procurava no interior da palavra Deus. Mas seu corpo não sabia do que falava, fazendo tudo acabar no murmúrio de ladainhas vazias, coisas ocas como seu coração. Ele até achava entender Jesus, mas por cima dos seus lábios, isso tudo só era mito. Eduardo sabia que seus pecados enquanto atos e costumes haviam sido construídos desde as primeiras marcas na alma e no corpo – numa infância longe de Deus, por mais que perto da igreja. No tempo desses entendimentos ele ainda vivia as euforias de um primeiro encontro genuíno com Deus. Foi quando ele chamou Cristo para catar os pedaços de uma consciência totalmente fragmentada. Tudo foi posto em cima da mesa, e ele pode ver então como coabitava harmoniosamente sua natureza pecaminosa para com a educação religiosa que recebeu. E este era Eduardo, um homem de Deus que não sabia estar fora do mundo.

Víamos sobre a suntuosa cadeira que Eduardo estava sentado, nela há uma grande bíblia ele pega e a vê com interesse. Inicialmente a leitura do trecho escolhido lhe parece difícil.
“_ Deus, por favor!” – diz o rapaz apertando os olhos e a bíblia na mão.
Então um homem de roupas claras, de aparência jovem e serena surge no espaço. Era o Espírito de Deus, manifesto enquanto anjo. Ele se dirige até a lateral de Eduardo que já retornara a ler, lhe coloca uma mão na cabeça e com a outra aponta para o Livro. Olhando para as páginas ele percebe alguma coisa estranha, ele bate o dorso da mão nas páginas abertas e por fim lhes assopra – o faz como se tirasse uma poeira que realmente vemos sair dali. Então Eduardo se ilumina. Seu corpo, principalmente seu rosto nos revela, grande comoção e entendimento.
“_ Ah! Deus, por que eu nunca tinha entendido isso antes?” – ele lacrimeja as novidades de seu entendimento. Ele lê páginas e páginas e as intensidades lhe crescem – víamos nisso um Deus revelado.
Eduardo decide orar, mas dessa vez não poderia ser como sempre, desejava que fosse especial. E junto ao nascer dessa decisão, das escuridões de nosso palco, insurge outro homem. Bem diferente do primeiro, esse é dotado de posturas desumanas, suas roupas são sujas e escuras, encardidas ele parece vir de lugares similares, e seu modo de se mover conjuga um comportamento atento e astuto, como de um animal. Esse veio para impedir o homem de orar – “veio” ou talvez já estivesse ali, vestido pelas sombras das mentiras inventadas e ocultadas pelo próprio protagonista de nossa história.
Um primeiro estranhamento entre esse dois pólos que circundam Eduardo começa quando o anjo tenda mostrar ao homem alguma postura de rendição propícia a intensidade do seu desejo de oração, mas o demônio tenta impedir. O anjo mostra-lhe a boa representação de se descalça, o demônio tenta atrapalhar desequilibrando o rapaz, enquanto repete: “_ Bobagem, bobagem!”; mas Eduardo insiste e consegue se descalçar. Então o anjo lhe mostra como é bom se por de joelhos; o outro insiste em atrapalha ainda murmurando. Eduardo se impõe força e ajoelha-se. Agora o anjo toca-lhe a nuca para recliná-la. O demônio grita: “_ Ah! Que grande bobagem! Curvar-se!” – e gargalha tentando levantar seu rosto, ainda pondo a mão na cabeça do homem boceja lhe olhando de rabo-de-olho. Eduardo boceja também.
O anjo embravecido toma o imundo pelas roupas e o joga para longe. O Espírito de Deus, manifesto nesse anjo, se coloca ao lado de Eduardo, toca-lhe as costas e se põe em postura de oração, o homem respira fundo e faz o mesmo. O demônio grita: “_ Seu babaca, isso é tudo bobagem. Deus é bonzinho, só bate um papinho com ele. Pra que isso tudo? Vamos, é só trocar uma idéia com o papai!” – terminando sua sarcástica afirmação seguindo de muitas gargalhadas e tentando novamente avançar sobre Eduardo.
O Espírito de Deus se coloca na frente, o demônio parece se assustar e recuar como um animal ouriçado, impelido mais ainda bravo. Eles lutarão, mas pela certeza do que aconteceu na Cruz não havia dúvida para nenhum dos dois de quem venceria. Eles lutariam por aquilo que incidia no coração de Eduardo, ele havia escolhido ver Deus, mas continuaria nesse querer?
Uma grande tensão emana dessa batalha, eles se movem pelas margens de um espaço agora circular onde Eduardo, ajoelhado é o eixo central dessa roda. Olham-se fixamente, o anjo ereto e o demônio curvo como se espreitasse alguma brecha na guarda do outro. Ambos atentos ao homem que orava intensamente. O demônio, então, resolve atacar. Avança com muita rapidez e precisão para cima de Eduardo. O anjo como um sopro lhe surge pela frente golpeando com muita força sua cara, com ela seu corpo se desmonta distanciando ar. Sem muita demora o demônio novamente se postura de quatro apoios, como um animal e insiste. Nisso o anjo lhe imprime força, resistindo à obstinação do seu golpe. Eduardo parece sentir as impressões dessa batalho no arrastar da sua oração. Eles não estão em pé de igualdade, mas o sombrio ser parece se esgueirar com precisam aos firmes e diretos golpes do anjo.
Em um golpe sujo, o anjo é ligeiramente empurrado para longe de Eduardo, essa é a oportunidade do demônio se aproximar novamente; ele aperta os olhos com tanta satisfação e uma grande sombra lhe cresce pelas costas – parece não estar sozinho. Vemos seu avançar nas qualidades de um grito monstruoso, ele corta o ar como quem passa uma lamina quente sobre manteiga. Dilacerar o coração daquele homem era claramente o seu desejo. E ele ia, até que os pulmões do próprio e enchem na eminência de um grito como de quem está em um fundo de um grande poço escuro: “_ Em nome de Jesus, que caia tudo o que não me deixa te ver!”. E como numa grande explosão de ar, o demônio foi interrompido quase que nas costas do rapaz, sendo lançado com o dobro da força que avançava para o lado completamente inverso. “_ Em nome de Jesus!” – continua Eduardo chorando profundamente e buscando verdade em seu coração.
O Espírito de Deus, pisa sobre a cabeça do demônio, coloca-lhe firmemente uma coleira presa a uma corrente de ferro, e arrasta o demônio que se debate de volta as sobras e essa batalha aparentemente se encerra com uma precisa finalização da luz sobre o engano. A potestade esbraveja: “_ Ainda não acabou! Ele ainda não se entregou, ainda vou ter outras oportunidades! Eu sempre tenho!”. Eduardo permanece orando.
Cruzando o espaço, vindos do mesmo lugar por onde saíram o anjo e o demônio, logo voltam os Relógios. Na ponta do palco, com as mãos para o alto, Eduardo grita: “_ Obrigado Deus! Valeu por ter vindo!”. Cada Relógio para de um lado de Eduardo, ele se levanta e todos correm em circulo e de costas. Vemos se agregarem a essa corrida rebobinada, um homem maltrapilho, que nos parece um mendigo. Ele e Eduardo param sentados no chão a frente do espaço eles parecem conversar, os Relógios ao fundo.

“_ Eu aceito!” – expõe o mendigo que parece chorar. – “Eu aceito esse Cristo!” – diz ainda erguendo muito alto a mão direita.
“_ Glória a Deus!” – festeja Eduardo, também chorando e abraçando o homem sujo. – “Você vai ver, tudo vai ser melhor!”.

Todos voltam a correr, agora para frente. Eduardo põe uma gravata que um dos relógios tira do bolso, e arruma o blusão por dentro das calças. O mendigo sai do giro e entram dois homens também de gravata, e uma mulher que logo conheceremos bem. Ela se chama Érica, na opinião de Eduardo a mulher mais linda que ele já viu na vida. Os relógios abandonam o espaço, e então o giro logo desacelera, os três homens param a frente conversando, Érica vem do fundo do palco trazendo uma prancheta com papeis para Eduardo assinar – ele se mostra perplexo com a beleza e sensualidade dessa mulher.

“_ Limpa a baba, cara.” – sussurra um dos amigos para Eduardo enquanto Érica se aproxima.
“_ Sr. Antonio, Sr. Eduardo, boa tarde! Tenho alguns documentos pra vocês assinarem.” – disse a mulher complementando sua beleza com uma graciosa simpatia. “_ Para a liberação ‘daquele dinheiro’, dos ‘associados’.” – expõe a moça como quem não quer dar muitos detalhes de alguma coisa já tratada, mas que não deve ser posto a público.
“_ Ah! É claro, se eles não recebem, eu também não recebo o meu, né!” – relatou Antonio em tom de brincadeira que parecia deixar mais comprometedor ainda o tom da conversa.
“Sim, é claro.” – concordou Eduardo meio sem graça pela presença da desconhecida intrigante moça, e mais ainda e pela situação que ela parecia já conhecer.
“_ Não sei se você conhece, mas essa é a Srta. Érica, nossa nova secretária. Dona Sônia se aposentou e indicou Érica pro seu lugar.” – explicou Antonio enquanto assinava os papeis.
“_ Prazer Érica.” – disse Eduardo lhe estendendo a mão.
“_ O prazer é todo meu Sr. Eduardo. Ouvi falar muito bem do senhor.” – disse a bela moça que lhe apertando a mão e se aproximou para romper as formalidades com os culturais três beijinhos cariocas. Eduardo sentiu algo estranho um pouco abaixo do umbigo, e apesar daqueles bizarros papeis assinados pelo amigo Eduardo, tinha haver mesmo com Érica; por isso, sabia que aquilo que sentia não era bem nervosismo.
Mesmo depois da saudação, Eduardo ainda não conseguia soltar a mão da moça, que também não a tomava de volta pra si. Uma estranha contemplação lhe tomava a face, que ruborizava. Seus olhos eram como enraizados de sol. Entretanto, por mais que seu corpo permanecesse ardendo, era certo, e ele sabia, aquela paixão o destruiria.
Um som crescente parecia saltar de seu peito, e no desenrolar desse ritmo pareciam surgir outras pessoas no espaço – essas ainda adequadas aquele espaço de trabalho. Elas se movem lentamente. Tudo parece congelado no ar, e com o acentuar das batidas ouvimos o romper, luzes coloridas acompanham as açoitadas dos sons fortes de uma música mixada.
Surpreendentemente outras pessoas mais invadem o espaço – não é mais o escritório. Alguém propôs e Eduardo aceitou sai com o pessoal do trabalho naquela mesma sexta-feira. Antonio era o proponente de tal aventura, eles eram amigos desde o início da época da faculdade de economia; logo se tornaram amigos, e mesmo que envolvidos de maneira diferente com suas igrejas e Deus conversavam muito sobre essas coisas – sendo o tempo um grande ajustador dessa amizade. Os dois eram homens sérios e muito bem respeitados em seus espaços de trabalho. Eduardo tinha um temperamento um tanto explosivo e impaciente com o que lhe parecia errado, e ele achava que isso era imutável, pois vinha do período que seus pais brigavam muito, ainda antes de se separarem. Mas profissionalmente era muito responsável e disciplinado, o que lhe ajudava aprender rápido e de maneira eficiente, serviços complicados – sendo justamente isso o que ajudou Antonio a lhe conseguir um estágio na empresa em que trabalhava. Já esse outro pouco falava sobre a família que parecia ser rica e distante – ele mesmo era sempre calmo e muito apurado no falar. No entanto algo foi claro desde o início, ele sempre queria ser o melhor, e era, no trabalho, nos namoros, na família e até com os amigos.  “Parecer sempre perfeito”, isso o motiva a ir pra frente, mas também lhe trazia medo de permanecer preso às pessoas e aos fantasmas de possíveis fracassos.
Sem dúvidas essa amizade ajudou os dois a avançarem muito em suas próprias vidas, e esse era um dos motivos, além de Érica, para não negar sair com o amigo e o pessoal do trabalho. Eles eram um para o outro um tipo de companhia que se podia contar para tudo, e Eduardo já precisara dessa ajuda muitas vezes, que sem desculpas nunca faltou. Antonio amava tanto a Eduardo que nem sabia como lhe contar.





[i] Os diálogos que compõem essa cena foram construídos com base em referências teológicas sobre batalha espirituais nas lógicas neo-testamentais, ou seja, que consideram as transformações decorrentes do sacrifico de Cristo na Cruz. Batalhas sobre forças que não nos impedem de falar e ter contato direto com Deus (como as descritas no livro de Daniel), mas sim de querer se entregar e sustentar o compromisso com Ele, pois com o sacrifício da cruz, o véu se rasga e temos o Espírito Santo para interceder por nós. Então o diabo agora disposto em nos impedir de crer e escolher amar um Deus totalmente acessível por uma entrega nossa, que nada mais é do que um reflexo da entrega de seu Filho por nós. Também foram tomadas como base, algumas indicações literárias do livro “Cartas do diabo ao seu aprendiz”, de C. S. Lewsi.
[ii] Desde o “pecado original”, todos nasceram como pecadores e se continua uma genealogia marcada pelo primeiro erro. O profeta Isaias nos disse que pelo desvio havíamos sido destituídos da Glória de Deus. Mas também, em Samuel, Jeremias e nos próprios discípulos vemos outros casos marcados tanto pela promessa como pela própria vinda do “segundo Adão”, o Cristo. As condições nas quais nascemos fazem parte dos planos de Deus para quilo que Ele deseja que sejamos. Poderíamos dizer: Não se trata de um Deus escrevendo em linhas tortas, mas de uma caligrafia feita em corpos e almas, torcidos; vidas paradas postas nas mãos de um Deus movente.