sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM_a vertigem dos homens (Parte VI)

Último movimento
– Sobre a escolha[i]


Que o homem atravessa longos períodos de árvore nós já sabíamos, duvidamos mesmo é dos frutos que eles dão. Os que buscam sabem: não se trata do que dissemos ou fizemos, isso tudo é galho. Sempre se tratou daquilo que dessas coisas surgiam. É pelo sabor dos frutos que o Espírito tem provado ao mundo que Ele ainda vive, ardente, no coração daqueles que saltaram da vida para a Vida. Os produtos da Boa Obra não são outros se não os da Regeneração, aqueles que fazem estender sobre os corações dos homens o verdadeiro governo do Cristo ressurreto. Não há Reino de Deus sem Deus, e não há conhecimento de Deus sem um mergulho sincero na profundidade das suas Escrituras – se houverem corações sinceros debruçados sobre o Livro, veremos que só conhecemos as bordas de tudo que pode Deus. Somos lonjura, terras distantes, domínios de outro reino, árvores plantadas longe do Rio, galho seco caído no chão. Sepulturas abertas, encobertas de músicas e palavras bonitas.
Corações “cristãos” endurecidos ao evangelho, ignorantes de Deus; e disso não escapam muitos de nosso lideres. Achamos disfarçadamente que o problema está fora de nosso meio. O não-Jesus que vive nosso país não é culpa dos políticos corruptos, das linhas ocultas de satanismo, do carnaval, da cultura popular ou de qualquer outra coisa. O problema somos nós: os falsos cristãos; é aí que o problema deve ser encontrado no coração confuso daqueles que dizem que O amam e levam sua Luz. Em nada mudamos senão em costumes morais de ordem pública, não conhecemos o evangelho. Assim vazios deixado de evangelho, não há mais nenhum poder em nossas supostas mensagem de vida; recorremos então a todos aqueles pequenos truques de mercado; quando vêem os homens estão dentro da igreja repetindo “eis-me aqui” enquanto na verdade seus corações estão bem longe de lá. Pegamos a transformadora palavra de Deus e a reduzimos a “quatro leis espirituais” e “cinco coisas que Deus quer que você saiba”. E é isso o que chamamos de fruto; trocamos regeneração por “decisionismo”, somos isso: ajuntamento de gente vazia liderada por agitadores cheios de palavras de consolo.
Eis ai a igreja de pé que na verdade está caída: eles negam a suficiência da Escritura, usam de tudo, ciências, técnicas, filosofia; obscurecem a Palavra. São desexperimentados de Deus, só o sabem de palavra alheias. Nada falam sobre o mal do homem, pois nada sabem do regenerador evangelho que é o próprio Jesus Cristo. Indutores de um evangelho de aparências. Desconhecedores do próprio corpo, que é a igreja, lhes faltam de disciplina de amor e compaixão; cultivam o egoísmo, duplicam a solidão. Gente cheia de idéias tortas, mal nutridas na Palavra de Deus. Exatamente, estamos diante de nós mesmos e agora você sabe por que aquele pequeno evangelho que você prega não tem nenhum poder? Porque não é nenhum evangelho. Mas se alguém – não se alguns, mas se alguém – está em Cristo, nova criatura é. O evangelho lhe amanhece como uma primeira luz, seus joelhos se gastão, e só lhe resta conhecer a Cruz, porque se o homem chegou nesse instante da caminhada a cruz já o tem.

Os relógios irrompem o espaço levando Eduardo ao acompanhamento de suas mesmas movimentações circulares. Eles giram até ser possível depositar sobre a mão do homem uma garrafa de bebidas; em meio ao percurso que se acelera ele derrama o líquido sobre si mesmo, como quem se atrapalha ao beber. Ele gargalha da sua própria miséria, novamente se perde em si mesmo. Vemos dois homens entrarem na corrida também com garrafas na mão; Eduardo para tonteando na ponta direita do palco e os homens na esquerda ao fundo.

“_ Ninguém presta nesse mundo!” – grita Eduardo para qualquer um ouvir. “Geral é tudo um grande saco de bosta!” – bêbado não se agüenta e gargalha de si mesmo e de qualquer a quem tenha servido a ofensa.
Os homens, antes ao fundo do nosso palco avançam em direção ao público. Chegam à frente do espaço como se tivessem se posicionado cara a cara como o bêbado, eles nos olham como se fossemos o próprio Eduardo; vinham tirar satisfação.
 “_ Você se ferrar sozinho tudo bem, ô seu babaca, mas atrapalhar a diversão dos outros é muita falta de vergonha na cara!” – diz com ares de autoridade, enquanto o bêbado parece começar a rir novamente.
“_ Presta atenção seu otário! Eu tô falando contigo!” – terminam empurrando o ar como se empurrassem Eduardo pelos ombros. E do outro lado do palco, também de frente para o público, ele sofre a ação. “_ Olha lá, que miserável!” – diz cheio de desdém arrematando a o fim da conversa com um cuspe no chão e o virar das costas.
“_ Bêbado assim só deve ser corno!” – caçoa o outro homem.
Eduardo se levanta transtornado com a precisão da ofensa desse segundo homem; será que todos só de olhar já sabiam? E nesse salto para se por de pé ele já se levanta concentrando toda raiva na obrigação de um soco certeiro lançado na cara do ofensor. O homem cai com a boca sangrando.
“_ Seu merda quem você pensa que é?” – reclama o outro homem.
“_ Ué?” – diz Eduardo cambaleando – “_ Corno, merda, miserável. Todo mundo aqui já me conhece, é? Andaram conversando com minha esposa!” – gargalha Eduardo debruçando o corpo para frente e apoiando as mãos sobre o joelho, curtindo profundamente a lógica do menosprezo que acabara de fazer a si mesmo.
“_ O que você ta pensando, seu merda!” – diz o homem de pé com a mão espalmada no ar, como se no peito de Eduardo, e a outra do lado do corpo já com o punho fechado; ao seu lado, como de frente, o homem tonto e gargalhado novamente sofre a ação.
Logo o homem derrubado pelo soco de Eduardo se levanta e, se adiantando ao colega de pé, quebra-lhe uma garrafa como se na cabeça do bêbado, que cai, mas sangrado e tonto insiste em se levantar. Os homens insistem em socar o ar a sua frente e Eduardo, também de frente para nós, se soca e rasga suas roupas – sempre foi dessa maneira, e isso, ali na vertigem de sua consciência se fazia mais obvio, era Eduardo que fazia isso tudo consigo mesmo. A pesar de tudo nosso protagonista permanece de pé, ofegante. Com o aumentar da sua dor, a escuridão lhe cresce ao redor, engolindo com ela os seus agressores. Apenas uma luz a pino nos permite ver Eduardo mergulhado pela escuridão de um grande palco cheio de nada. Vemos bem, ele transpira, tem as roupas rasgadas, algumas manchas roxas no rosto, e sangue respingado pelo corpo que soluça. Um sorriso leve. Sangue escorrido de sua boca, gargalhadas de um choro profundo e desesperado buscava lugar no seu rosto. Um homem de pé, ameaçando em suas dores e agonias; em uma queda invisível que só ele pode ver. O silêncio escora seu corpo; o ar pesa. Vemos a vida lhe escapando pelos poros. Sabíamos bem que ele não buscava nada além de si mesmo, uma busca que o levara a se encontrar com a profundidade de seu próprio vazio. Esse homem, envolvido de escuridão e pelas palavras duras de sua própria consciência, é matéria final do abandono.
No seu interior ele acabara de visitar lembranças cobertas de limo – experimentadas ou inventadas, ele não sabia ao certo. Seu corpo fraqueja e seus músculos desarmam-se aos poucos, quando dois fortes homens roupas sérias rompem o espaço em direção a Eduardo, e o seguram quase no ar. Junto com eles vem luz suficiente para iluminar o palco. E assim, vemos um terceiro homem, simples, mas formalmente vertido, seguindo a agressiva dupla. Na força desse ímpeto de avanço, os dois homens agarram Eduardo pelos braços e o arrastam brevemente, logo o lançando do outro lado do palco; o impacto do corpo ao chão lhe faz vomitar.
“_ Seu merda, desgraçado, filho da...”  – interrompe o homem a si mesmo, tomado de nojo e desdém pelo homem caído, surrado e agora vomitando. Virando o rosto e tomando ar em uma região não afetada pelo mau cheiro de Eduardo o homem prossegue com veemência. “– E vê se não aparece nunca mais por aqui! Seu merda, corno!”.
            Os três algozes abandonam Eduardo e o espaço, ambos transformados pela violência e pelas marcas feitas no, caído e agonizante, corpo que enfim se encontra vertiginosamente lúcido em sua própria dor. Caído da ponte sem apoio que ele mesmo construiu, o homem parecia se esforçar para levantar, mas um misto de medo e insegurança o lembrava que há muito tempo ele não tinha compromisso algum com qualquer postura de elevação. Ele ainda ria um choro confuso, e sob o som do seu lamento vemos cada um dos outros personagens de nossa história de agregarem as costas de Eduardo, ao fundo ele compõem um mesmo corpo com o homem. Do lado oposto vemos Deus, mais uma vez ele está lá; aliás Ele nunca deixou de estar, mas agora se apresentaria pessoalmente pelas vias de um Espírito, que de tão Santo, fazia tudo se mostrar. As costas desse homem é tomada de luz e das imagens de uma amor jamais visto. Ele falará com o homem sobre a forma de uma canção, seu amor se fará música e Ele mesmo, mais do que palavras mortas.

“_ Você nunca mais falou comigo, nem um simples... “Obrigado porque hoje eu tenho vida”. Na verdade eu sinto falta da sua voz. Quantas vezes você veio a mim e eu estive sempre te escutando, te ajudando, te dando força?”

“_ Até parece que você se importa. Esse é seu plano maravilhoso: que eu sofra? Que eu seja mais um dos seus vasos de desonra?” – disse o homem tomado de lágrimas e dor. “_ Estou cansado e não tenho motivos pra conversar, nem com você nem com ninguém.” – e sua voz reafirmava o peso do que estava falando. “Por favor, fica quieto. Para de falar comigo. Vai embora!” – abaixando a cabeça, Eduardo pensava concluído.

“_ Na verdade eu gosto muito de você... você anda longe, anda triste, tão sozinho. Na verdade você não passa de um menino tentando se encontrar.” – cantou Deus que ainda lhe insistia a consciência.

“_ Não fale assim comigo!” – disse tentando coragem no falar. “_ Eu cresci, sou homem e sei muito bem o que quero!” – complementou ainda, se surpreendendo como quem vira uma esquina e se depara com a falta de verdade do que acabara de dizer; seus olhos se perdiam no ar. Então ele assume: “_ Quero minha vida e não a sua!” – e nessas palavras não há distinção entre audácia e dor.

“_ Triste, eu não quero ver você assim tão triste... mas longe de mim só vai ser triste. Só chamar que eu vou correndo te encontrar...” – ainda cantava o Espírito de Deus com entusiasmo e dedicação na direção do homem.

“_ Vem, então!” – disse o homem parecendo se render. “Não! É melhor não ser assim!” – concluiu voltando com a palavra, e enchendo-se mais ainda de dúvidas. “_ Não suporto saber o quanto você me ama. Seu amor me envergonha! Sou obrigado a mudar tudo.”
“_ Ainda não sei se quero!” – dizem todos em uníssono com Eduardo.
           
            “_ Sei que aqui é sufocado, mas eu agüento. Muito disso tudo é até dispensável, mas eu não consigo largar. Acho que sou feliz por aqui!” – complementa Eduardo de própria voz.

“_ Quando você vai voltar pra mi?” – afirma Deus com um som aquecido de voz. “_ Estou te esperando... volta logo que o tempo esta findando. cristo volta logo e não há outra chance.” – termina o Espírito lhe estendendo as mãos.

“_ Para de falar comigo, por favor!” – diz o homem como se pudesse, em seu desalento, mandar em Deus. “_ Eu não quero! Eu não mereço!” – tenta dizer em meio a soluços e lagrimas. Uma pessoa, na multidão recuada em Eduardo repete: “Eu não quero!”. E nosso protagonista o continua.

“_Você não pode me amar assim! Você não pode me amar assim!” – persistia, na verdade, para convencer a si mesmo.

“_ Filho tanta coisa pra dizer... Filho eu tenho um presente pra você... Volta filho... é verdade eu gosto muito de você.” – e terminado de lhe cantar essas coisas, Deus se aproxima de Eduardo; que se assusta recuando.

“_ Eu sei. Conheço bem o seu amor e sei o que ele pode fazer!” – palavras lhe saem enquanto balança a cabeça em negação. “_ Mas eu não quero!”

Um a um, cada personagem atrás do homem diz o mesmo e aos poucos eles recuam deixando o palco, o próprio Eduardo se põe de pé, olha para trás vendo a multidão que se espalha em muitas direções e olha para Deus que ainda está de braços abertos, e por fim ele nos parece já ter escolhido, o vemos acompanhar a multidão daqueles que na beira do trampolim desistiram de pular. Sentiam-se tontos pela altura onde Deus levantara sua consciência, tiveram medo do que viram por sobre suas próprias vidas. Colocaram-se diante da eternidade do amor de Deus que transbordava na Cruz e na redenção do Cristo, elevaram-se e por fim o abandonaram por medo da transformação.
As luzes abandonavam o espaço na companhia daqueles que tomados pela consciência obscura de suas humanidades escolheram negar, mesmo que por enquanto, qualquer tipo de vida que não fossem as suas próprias. No quase apagar do palco, no fim daquilo que nossos olhos alcançam, vemos então um homem sair do meio da multidão, como muita veemência ele se lança com um forte impacto nos braços do Espírito de Deus – ouvimos um choro profundo que parecia vir de um poço escuro; em meio as luzes completamente apagada sabemos que era Antonio, enfim ele escolhera dizer “sim”. Ele se lembrou das coisas que o próprio Deus já havia lhe dito enquanto ele fingia não ouvir; teve fé e saltou para a morte que, enfim, trouxe a Vida do Cristo para o vazio que tinha exatamente o tamanho que o cabia. Sem facilidade alguma em poucos anos veremos um homem curado de si, profundamente experimentado de Deus, alguém disposto a fazer obras ainda maiores, um grande líder – como seu coração sempre ardeu querer, mas que não sabia como. Ele será pastor, não de título mais de alma. Alguém muito diferente do comum, pois viverá um Evangelho menos amontoado de palavras. Seu coração não queimará mais por atenção e platéias, mas por outros corações. E talvez um desses corações possa ser o meu ou o seu – e ainda até mesmo o de um antigo melhor amigo, aparentemente, esquecido no passado.



[i] Trecho inicial elaborado com base na leitura de mensagens do Pr. Paul Washer. E O dialogo entre o Espírito de Deus e o homem faz uso integral da canção “De Deus” de composição de Daniela Araújo.

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