– Antes de todo movimento –
Prelúdio
Submerso
pela escuridão de um grande palco cheio de nada, sendo iluminado
progressivamente por um foco a pino, vemos um homem. Ele transpira, tem as
roupas rasgadas, algumas manchas roxas no rosto, e sangue respingado pelo corpo
– talvez seu, ou não. Seu corpo soluça, e junto com o crescer da luz, o ritmo
desses soluçar. Ao longe, uma voz reclamar presença e crescer junto com a luz. Essa
aurora também nos recobre e enquanto contemplamos a confusa dor desse rapaz de
pé, que na verdade está caído, podemos ver que algumas dessas palavras
expressas em sussurros e gritos são projetadas, surgidas, se escrevendo no ar.
“– Por que tanta teimosia?” – reclama
a voz. “– Por que continuar sendo o mesmo, sem diferença alguma de qualquer
outro que já tenha vivido nesse mundo? Por que insistir em fingir que não está
mentindo pra si mesmo?”.
Um breve silencio se faz, nos permitindo
unicamente observar as estranhas condições daquele homem (“—Teria ele alguma
coisa haver com as palavras que estavam sendo ditas? – diz alguém sentado
próximo.).
“– Não podemos negar, – continuou a
voz – você já nasceu entregue as paixões desse tempo. Mas não é também você
aquele que se diz ser um dos filhos
remidos, escolhidos do Deus Vivo? Aqueles transformados pela renovação das suas
mentes? Os que conheceram a verdade e por ela foram libertos? Aqueles que
buscaram e encontraram porque fizeram de todo coração? Os que vivem porque
crêem?” – disse enfaticamente em um tom que em distancia insinuava ironia.
Levemente
vemos que se abre um sorriso no rosto do homem surrado – o qual não se sabe se
compartilha do que estamos ouvindo, e por isso, se sorria em conseqüência ao
que estava sendo dito. Mas essa dúvida logo se escapa quando vemos sangue
escorre dessa brecha em sua boca. Um pulsar crescente toma todo seu corpo; é
quando somos surpreendidos por suas gargalhadas. Ele está tomado de uma cadência
que nos revelava que tudo aquilo não se tratar de alegria, mas de um choro
profundo que de tanto desespero se confundiu até chegar ao rosto.
“– Ah, não adianta nos enganarmos,” –
afirma veementemente a voz de alguém que para dar importância fala com firmeza
– “não brilhamos luz alguma, e ainda repetimos os mesmos modelos de sempre.
Somo parte dessa escuridão que negamos em nossas canções de amor. Somos o sal
sem sabor, o ramo cortado da Videira.” – termina forçado pela necessidade de um
suspiro profundo. Continuando, então, calmamente: “– Você vive em plenitude de morte,
e mesmo que cheio de boa vontade, mesmo
que já tenha levantado as mãos e corrido em prantos pra frente de uma igreja,
inchado de emoção, você é apena repleto dessa luz que você mesmo fabricou pra chamar de ‘Deus’. Você finge
entender a Cruz!”.
Vemos
enfim o homem chorar uma dor tão profunda que sua voz parecia vir das partes perdidas
de um poço escuro e abandonado. Esse é Eduardo, um homem de pé, ameaçando em
suas dores e agonias, à eminência de sua própria queda. O
silêncio então escora seu corpo que agora soluça mudo; o ar pesa. Vemos a vida
lhe escapando pelos poros. E assim, imersos nessa visão, a voz parece nos concluir
com reprovação.
“– Porque aquele que diz que
conhece a Jesus e continua o mesmo, fala sério, não o conhece!”[ii]
[i] Apresentação (animação em vídeo): Igreja Monte Horebe// Ministério Jovem //Apresenta // “Vertigine_Hominis
:: a_vertigem_dos_homens” // Ainda esta noite. Três vezes...
[ii]
Trecho construído sobre as referências bíblicas de Romanos 12:2 e I João 3.
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