sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte IV)

Terceiro movimento
– Tipo, nada haver –


Dizem ser comum a juventude de um rapaz cristão alguns quase-desvios. O que pouco se ouve hoje em nossas igrejas é que não se pode estar quase na presença de Deus. Sabemos, mas fingimos que não, a mornidão provoca náuseas em Deus. Alguém uma vez disse, e até escreveu na bíblia, que deveríamos nos afastar inclusive daquilo que nos parecer incerto, ele chamou isso fugir de aparência do mal. Mas preferindo estar longe, seguimos maquiando aquilo que tem uma cara muito sinistra. Dizemos: “Nada haver, isso! Nada haver aquilo!” E na verdade, se nos aprofundarmos mais e mais de Deus veremos mesmo que muita coisa é só religiosidade e não tem nada haver mesmo. Deus vê o coração, diz o profeta Samuel, não vê como o homem vê. Deus não tem problemas com o corpo do homem, nem com bebidas, músicas, danças, roupas, lugares, pessoas; quem carrega esses problemas somos nós. São os nossos corações que não sabem valorar as coisas pelas lógicas dos olhos de Deus. Somos nós que não nos renovamos pela transformação das nossas mentes, preferimos quase crer, quase seguir, quase ser salvo, e isso bem que seria o suficiente, é claro, se houvesse uma quase-Eternidade um e um quase-Deus.

            “_ Não sei se foi uma boa idéia vir até aqui!” – Eduardo gritou no ouvido do amigo, pelo som alto que os abafava a fala.
            “_ Que isso cara, desencana.” – afirmou Antonio dando um copo de uma bebida azul ao amigo. - “Eu também sou crente, lembra, pecado é se embriagar, não é beber. Vamos agitar, pô!” – disse dando uma dançadinha descompassada e aproximando a bebida da boca, mas não lhe dando grande golada, parecia fingir beber e isso era um pouco ridículo para Eduardo. “Aproveita, brother, você é um cara bonitão, tá solteiro.” – riu balançando o obro do amigo como se novamente o mandasse agitar – “E falando nisso, se liga quem tá vindo lá!” – diz apontando para Érica que se aproximava com um vestido azul que lhe vestia bem, mas cobria pouco; claramente ela estava em boa concordância com o lugar.
            “_ E ai chefinhos, como vai a noite de vocês?” – brinca querendo ser simpática, ou mais que isso.
            “_ Chata, até você chegar.” – sorri Antonio dando um abraço na moça e continuando o tom de brincadeira.
            “_ Olá Srta. Érica. Tudo bem!” – falou rapidamente Eduardo, tentando alguma formalidade sem saber muito bem porquê.

            Ela sorri, ele retribui com um tencionar sem jeito do canto da boca. Atitudes inesperadas podem ocorrer em momentos como esse – muita coisa esta sendo dita nesse instante. Para moça, aquele não era um lugar de cenas em câmera lenta e tão pouco de se encabular feito adolescentes; para ele, ela só era linda e isso já era o suficiente para lhe atar a atenção – eles eram adultos e sabiam bem o que queriam, e isso justamente foi o que fez esse pequeno cortejo não durar muito. Abruptamente Érica rompe qualquer etiqueta descabida e beija a bochecha do rapaz, muito próximo ao canto de sua boca; rouba-lhe o corpo da mão e Eduardo que se vê em um misto de susto e vaidade provocados pela intensidade do interesse daquela belíssima mulher que, enquanto bebe seu drinque roubado, parece propor que dancem juntos. Logo chega outra mulher muito bonita, que parece acompanhar Érica, ela se junta a dança e agrega mais ostentação na importância que já estavam lhe dando. “Como poderia ser desejado por duas mulheres tão bonitas?”, se perguntava Eduardo quase agradecendo a Deus por tudo isso.
Mas assim vestindo-se de luzes coloridas e agitadas, aquele espaço sufocante transpirava o rapaz, e ele achava flutuar. Eduardo morria lentamente de ter mil pássaros no peito. Sua liberdade se multiplicava no interior do seu fôlego e lhe retirava o ar. Ele morria enquanto se enchia de alegria aparente – tudo era só impressão, pois por fazer uso do desvio daqueles pássaros nos olhos, nada lhe chegava às vistas como verdade. Olhando a sua volta via a dança lhes crescer por dentro. Não há porque haver fingimento no levantar dos copos, agora eles bebem e se entregam as totalidades do instante. Todos na festa parecem conectados nessa mesma intenção. Dançam e cantam juntos varias músicas do momento – todos parecem se comportar como conhecidos. Era tão agitado quanto o culto de jovens da sua igreja. Eduardo sabia bem: ali existe um culto, para quem não sabe o propósito de um ajuntamento que verdadeiramente deseja a Deus, não há diferença, pois culto não necessariamente cultiva Deus, seja dentro ou fora das igrejas. Eles se saciam no desvio da verdadeira falta, acham se encontrar, fabricam felicidades em copos translúcidos e, com as mentes escorridas, louvam a brevidade da vida na exaltação disfarçada dos seus próprios nomes – “exaltados sejamos, e estamos sendo, nós mesmos!”, isso é o que realmente dizem.

            Para não nos esquecermos da realidade imaginária que habitamos junto com nosso confuso protagonista, retornam ao espaço os Relógios, que ao chegarem se admiram com o estado de Eduardo e, mais ainda, com as belas mulheres que o cerca. Respiram fundo e seguem abandonando o ar com desistência enquanto balançam a cabeça em reprovação a tudo isso. Tomam impulso e correm ao redor de todos, e aos poucos outros se adicionam a corrida e logo saem em varias direções; com eles a música e as luzes também se esvaem e só Eduardo e Érica permanecem no centro dessa roda, se movendo, como se ainda ouvissem música. Eles dançam e transitam escorregadiamente para uma caminhada normal, andam como se vissem caminhando pela rua, trocando assuntos engraçados, vendo vitrines, riem e em um movimento rápido Eduardo levanta e gira Érica no ar, e quando a traz de volta faz questão de não distanciá-la do seu corpo. Seus olhos encontram-se atentos um ao outro, e seus braços se cruzam num abraço tão forte onde eles pareciam querer se misturar. Os relógios de longe, observam sem muita reação.

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