Terceiro movimento
– Tipo, nada haver –
Dizem ser comum a juventude de um
rapaz cristão alguns quase-desvios. O que pouco se ouve hoje em nossas igrejas
é que não se pode estar quase na
presença de Deus. Sabemos, mas fingimos que não, a mornidão provoca náuseas em Deus. Alguém uma vez disse, e até
escreveu na bíblia, que deveríamos nos afastar inclusive daquilo que nos
parecer incerto, ele chamou isso fugir de
aparência do mal. Mas preferindo estar longe, seguimos maquiando aquilo que
tem uma cara muito sinistra. Dizemos: “Nada haver, isso! Nada haver aquilo!” E
na verdade, se nos aprofundarmos mais e mais de Deus veremos mesmo que muita
coisa é só religiosidade e não tem
nada haver mesmo. Deus vê o coração, diz o profeta Samuel, não vê como o homem
vê. Deus não tem problemas com o corpo do homem, nem com bebidas, músicas,
danças, roupas, lugares, pessoas; quem carrega esses problemas somos nós. São
os nossos corações que não sabem valorar
as coisas pelas lógicas dos olhos de Deus. Somos nós que não nos renovamos pela
transformação das nossas mentes, preferimos quase crer, quase seguir, quase ser
salvo, e isso bem que seria o suficiente, é claro, se houvesse uma
quase-Eternidade um e um quase-Deus.
“_ Não sei se foi uma boa idéia vir
até aqui!” – Eduardo gritou no ouvido do amigo, pelo som alto que os abafava a
fala.
“_ Que isso cara, desencana.” –
afirmou Antonio dando um copo de uma bebida azul ao amigo. - “Eu também sou
crente, lembra, pecado é se embriagar, não é beber. Vamos agitar, pô!” – disse dando
uma dançadinha descompassada e aproximando a bebida da boca, mas não lhe dando
grande golada, parecia fingir beber e isso era um pouco ridículo para Eduardo.
“Aproveita, brother, você é um cara bonitão, tá solteiro.” – riu balançando o
obro do amigo como se novamente o mandasse agitar – “E falando nisso, se liga
quem tá vindo lá!” – diz apontando para Érica que se aproximava com um vestido
azul que lhe vestia bem, mas cobria pouco; claramente ela estava em boa
concordância com o lugar.
“_ E ai chefinhos, como vai a noite
de vocês?” – brinca querendo ser simpática, ou mais que isso.
“_ Chata, até você chegar.” – sorri
Antonio dando um abraço na moça e continuando o tom de brincadeira.
“_ Olá Srta. Érica. Tudo bem!” –
falou rapidamente Eduardo, tentando alguma formalidade sem saber muito bem
porquê.
Ela sorri, ele retribui com um
tencionar sem jeito do canto da boca. Atitudes inesperadas podem ocorrer em
momentos como esse – muita coisa esta sendo dita nesse instante. Para moça,
aquele não era um lugar de cenas em câmera lenta e tão pouco de se encabular
feito adolescentes; para ele, ela só era linda e isso já era o suficiente para
lhe atar a atenção – eles eram adultos e sabiam bem o que queriam, e isso justamente
foi o que fez esse pequeno cortejo não durar muito. Abruptamente Érica rompe
qualquer etiqueta descabida e beija a bochecha do rapaz, muito próximo ao canto
de sua boca; rouba-lhe o corpo da mão e Eduardo que se vê em um misto de susto e
vaidade provocados pela intensidade do interesse daquela belíssima mulher que,
enquanto bebe seu drinque roubado, parece propor que dancem juntos. Logo chega
outra mulher muito bonita, que parece acompanhar Érica, ela se junta a dança e
agrega mais ostentação na importância que já estavam lhe dando. “Como poderia
ser desejado por duas mulheres tão bonitas?”, se perguntava Eduardo quase
agradecendo a Deus por tudo isso.
Mas assim vestindo-se de luzes
coloridas e agitadas, aquele espaço sufocante transpirava o rapaz, e ele achava flutuar. Eduardo morria
lentamente de ter mil pássaros no peito. Sua liberdade se multiplicava no interior do seu fôlego e lhe retirava
o ar. Ele morria enquanto se enchia de alegria aparente – tudo era só impressão, pois por fazer uso do desvio
daqueles pássaros nos olhos, nada lhe chegava às vistas como verdade. Olhando a
sua volta via a dança lhes crescer por dentro. Não há porque haver fingimento
no levantar dos copos, agora eles bebem e se entregam as totalidades do
instante. Todos na festa parecem conectados nessa mesma intenção. Dançam e
cantam juntos varias músicas do momento
– todos parecem se comportar como conhecidos. Era tão agitado quanto o culto de
jovens da sua igreja. Eduardo sabia bem: ali existe um culto, para quem não
sabe o propósito de um ajuntamento que verdadeiramente
deseja a Deus, não há diferença, pois culto não necessariamente cultiva
Deus, seja dentro ou fora das igrejas. Eles se saciam no desvio da verdadeira
falta, acham se encontrar, fabricam felicidades em copos translúcidos e, com as
mentes escorridas, louvam a brevidade da
vida na exaltação disfarçada dos seus próprios nomes – “exaltados sejamos,
e estamos sendo, nós mesmos!”, isso é o que realmente dizem.
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