sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte III)

– Segundo movimento –
Escolhidos por Deus,
mas consagrados ao mundo[i]




Um abraço economiza o transtorno de excessivas palavras, enquanto o excesso de palavras finge desprecisar de qualquer tipo de abraço. Estava ali, no histórico de muitas palavras, sendo anunciado no silêncio da entrega de um homem, o ápice do que enfim nos precisava ser dito. Seus olhos eram como de um animal que na ciência da véspera de sua morte se fazia mudo, alguém sem culpa aceitou o lugar de todos aqueles que haviam sido lhe dado. Esse homem era toda a imensidão do silêncio abastecido de abandono. Foi estendido e derramado, desamparado por causa de toda podridão que se fez responsável, e pela sua obediência, nos evolveu no calor de sua luz; e chamou isso de graça – porque não necessitava que seus herdeiros escolhessem aceita-lo, mas sim que soubesse e admitissem essa nova filiação para com a eternidade do seu amor. Ele era, por inteiro, a chave dessa eternidade. Seu corpo esgotado e deitado sobre a madeira estava sendo pregado, e pelas vias de nossas ignorâncias a Vontade se cumpria – fomos odiosos e não suportávamos viver, si quer, próximos ao seu mover; mais uma vez, entre muitas, intentávamos pará-lo. Entretanto, escondido nas entrelinhas do seu silêncio habitavam os gritos de muitos. Naquele instante, era ele mesmo um berro mudo de amor, um escandaloso anúncio das Verdades antes prometidas, mas negligenciadas por muitos. Ele era a Verdade, chave que se torcia na maçaneta das nossas celas, nos mostrou o lugar onde nascemos por causa da desordem do primeiro homem, mas também apontou onde renasceríamos. Somos maravilhados em seu amor, mas, ainda tementes, nos escondemos e escolhemos viver as superfícies de suas conquistas. Olhe bem e você verá, ainda estamos aqui, envolvidos do lodo e das sombras de desacertos que já não existem mais desde a Cruz? (Dizemos circularmente: “—Seu amanhecer põe glória demais nos meus olhos e eu não quero acordar! O cinzento das tardes daqui me empobrece a mente, mas sempre foi assim, e isso até me parece bom, o suficiente, pra ser feliz!”). Assim, nos continuamos na felicidade de uma liberdade que não experimentamos se não pela alegria de sabê-la possivelmente real. (“—Obrigado pelas Boas Novas, – dizemos meio sem graça. – “mas sua felicidade é muito difícil, estou bem onde estou! ‘Tamu’ junto!”). Recorremos incessantemente a esses desvios, quer saibamos ou não que o fazemos. Pois, quando um pecado se realiza, não ocorre na força de algo fora de nós nos induzindo a isso – a tentação é uma oferta. O desvio existe primeiro no coração, na natureza de um ser que já nasce nessas condições[ii] – e ali permanece, pois esse acredita tão fielmente na impossibilidade de mudar, tanto quanto credita fé no Deus para quem costuma cantar.
Contudo, mesmo que tais repetições sejam justamente aquilo que mais lhes parece ser vida, eles precisam saber como levar suas vidas para além das mesmices das coisas desse mundo. É por permitir que a tentação nos habite, e não por nos sentirmos atraídos por ela, que nos afastamos de Deus; eles precisam saber. Afinal de contas se o conselho é para que resistamos, quer dizer que em algum grau já nos atraímos, no entanto, que, por mais, não nos entregamos.
Essa exterioridade a quem culpamos é apenas um canal para concretizarmos um desejo que já habitávamos. Não se trata das coisas do mundo, mas de nós mesmo e de nossas partes como coisa do mundo. Somos pegos na dobra, numa curva que nos leva de frente para quem somo de verdade, ali não há saída. E você se vê dizendo: assim eu quis fazer! E por isso tomando luz daquilo que se pode vir a ser. Eduardo entendeu isso em sua juventude. E viu que arrependimento nada tinha haver com ressentimento, tristeza ou culpa. Ele viu pregado na cruz seus dolorosos defeitos e todos os acontecimentos do qual ele sentia vergonha – e insistia em esconder até de si mesmo. E por revelação, pois não há outro modo de conhecer a Deus, soube que isso não pertencia mais a ele, mas ao Filho sacrificado. Ele sentiu uma estranha dor em se despegar de sua morte pelo caminho da morte de Outro. Mas, estando cada coisa onde agora estavam, Deus lhe disse que não existia homem no mundo com autorização para retirá-las de lá; e por isso, por saudade da dor como motivo de vida, eles começaram a inventar seus próprios grilhões.
Eduardo tinha seu coração acometido de lodo, e sua boca até então usada de gafanhotos. Ele se vestia de palavras fracas, mas amava ser deste modo – tinha medo de se encontrar com Deus mesmo não estando mais dentro do Jardim – dizem que depois de Jesus ele anda por todos os lugares, por ai acessível à sinceridade dos corações. Então querer de verdade era perigoso.
Nosso protagonista até se procurava no interior da palavra Deus. Mas seu corpo não sabia do que falava, fazendo tudo acabar no murmúrio de ladainhas vazias, coisas ocas como seu coração. Ele até achava entender Jesus, mas por cima dos seus lábios, isso tudo só era mito. Eduardo sabia que seus pecados enquanto atos e costumes haviam sido construídos desde as primeiras marcas na alma e no corpo – numa infância longe de Deus, por mais que perto da igreja. No tempo desses entendimentos ele ainda vivia as euforias de um primeiro encontro genuíno com Deus. Foi quando ele chamou Cristo para catar os pedaços de uma consciência totalmente fragmentada. Tudo foi posto em cima da mesa, e ele pode ver então como coabitava harmoniosamente sua natureza pecaminosa para com a educação religiosa que recebeu. E este era Eduardo, um homem de Deus que não sabia estar fora do mundo.

Víamos sobre a suntuosa cadeira que Eduardo estava sentado, nela há uma grande bíblia ele pega e a vê com interesse. Inicialmente a leitura do trecho escolhido lhe parece difícil.
“_ Deus, por favor!” – diz o rapaz apertando os olhos e a bíblia na mão.
Então um homem de roupas claras, de aparência jovem e serena surge no espaço. Era o Espírito de Deus, manifesto enquanto anjo. Ele se dirige até a lateral de Eduardo que já retornara a ler, lhe coloca uma mão na cabeça e com a outra aponta para o Livro. Olhando para as páginas ele percebe alguma coisa estranha, ele bate o dorso da mão nas páginas abertas e por fim lhes assopra – o faz como se tirasse uma poeira que realmente vemos sair dali. Então Eduardo se ilumina. Seu corpo, principalmente seu rosto nos revela, grande comoção e entendimento.
“_ Ah! Deus, por que eu nunca tinha entendido isso antes?” – ele lacrimeja as novidades de seu entendimento. Ele lê páginas e páginas e as intensidades lhe crescem – víamos nisso um Deus revelado.
Eduardo decide orar, mas dessa vez não poderia ser como sempre, desejava que fosse especial. E junto ao nascer dessa decisão, das escuridões de nosso palco, insurge outro homem. Bem diferente do primeiro, esse é dotado de posturas desumanas, suas roupas são sujas e escuras, encardidas ele parece vir de lugares similares, e seu modo de se mover conjuga um comportamento atento e astuto, como de um animal. Esse veio para impedir o homem de orar – “veio” ou talvez já estivesse ali, vestido pelas sombras das mentiras inventadas e ocultadas pelo próprio protagonista de nossa história.
Um primeiro estranhamento entre esse dois pólos que circundam Eduardo começa quando o anjo tenda mostrar ao homem alguma postura de rendição propícia a intensidade do seu desejo de oração, mas o demônio tenta impedir. O anjo mostra-lhe a boa representação de se descalça, o demônio tenta atrapalhar desequilibrando o rapaz, enquanto repete: “_ Bobagem, bobagem!”; mas Eduardo insiste e consegue se descalçar. Então o anjo lhe mostra como é bom se por de joelhos; o outro insiste em atrapalha ainda murmurando. Eduardo se impõe força e ajoelha-se. Agora o anjo toca-lhe a nuca para recliná-la. O demônio grita: “_ Ah! Que grande bobagem! Curvar-se!” – e gargalha tentando levantar seu rosto, ainda pondo a mão na cabeça do homem boceja lhe olhando de rabo-de-olho. Eduardo boceja também.
O anjo embravecido toma o imundo pelas roupas e o joga para longe. O Espírito de Deus, manifesto nesse anjo, se coloca ao lado de Eduardo, toca-lhe as costas e se põe em postura de oração, o homem respira fundo e faz o mesmo. O demônio grita: “_ Seu babaca, isso é tudo bobagem. Deus é bonzinho, só bate um papinho com ele. Pra que isso tudo? Vamos, é só trocar uma idéia com o papai!” – terminando sua sarcástica afirmação seguindo de muitas gargalhadas e tentando novamente avançar sobre Eduardo.
O Espírito de Deus se coloca na frente, o demônio parece se assustar e recuar como um animal ouriçado, impelido mais ainda bravo. Eles lutarão, mas pela certeza do que aconteceu na Cruz não havia dúvida para nenhum dos dois de quem venceria. Eles lutariam por aquilo que incidia no coração de Eduardo, ele havia escolhido ver Deus, mas continuaria nesse querer?
Uma grande tensão emana dessa batalha, eles se movem pelas margens de um espaço agora circular onde Eduardo, ajoelhado é o eixo central dessa roda. Olham-se fixamente, o anjo ereto e o demônio curvo como se espreitasse alguma brecha na guarda do outro. Ambos atentos ao homem que orava intensamente. O demônio, então, resolve atacar. Avança com muita rapidez e precisão para cima de Eduardo. O anjo como um sopro lhe surge pela frente golpeando com muita força sua cara, com ela seu corpo se desmonta distanciando ar. Sem muita demora o demônio novamente se postura de quatro apoios, como um animal e insiste. Nisso o anjo lhe imprime força, resistindo à obstinação do seu golpe. Eduardo parece sentir as impressões dessa batalho no arrastar da sua oração. Eles não estão em pé de igualdade, mas o sombrio ser parece se esgueirar com precisam aos firmes e diretos golpes do anjo.
Em um golpe sujo, o anjo é ligeiramente empurrado para longe de Eduardo, essa é a oportunidade do demônio se aproximar novamente; ele aperta os olhos com tanta satisfação e uma grande sombra lhe cresce pelas costas – parece não estar sozinho. Vemos seu avançar nas qualidades de um grito monstruoso, ele corta o ar como quem passa uma lamina quente sobre manteiga. Dilacerar o coração daquele homem era claramente o seu desejo. E ele ia, até que os pulmões do próprio e enchem na eminência de um grito como de quem está em um fundo de um grande poço escuro: “_ Em nome de Jesus, que caia tudo o que não me deixa te ver!”. E como numa grande explosão de ar, o demônio foi interrompido quase que nas costas do rapaz, sendo lançado com o dobro da força que avançava para o lado completamente inverso. “_ Em nome de Jesus!” – continua Eduardo chorando profundamente e buscando verdade em seu coração.
O Espírito de Deus, pisa sobre a cabeça do demônio, coloca-lhe firmemente uma coleira presa a uma corrente de ferro, e arrasta o demônio que se debate de volta as sobras e essa batalha aparentemente se encerra com uma precisa finalização da luz sobre o engano. A potestade esbraveja: “_ Ainda não acabou! Ele ainda não se entregou, ainda vou ter outras oportunidades! Eu sempre tenho!”. Eduardo permanece orando.
Cruzando o espaço, vindos do mesmo lugar por onde saíram o anjo e o demônio, logo voltam os Relógios. Na ponta do palco, com as mãos para o alto, Eduardo grita: “_ Obrigado Deus! Valeu por ter vindo!”. Cada Relógio para de um lado de Eduardo, ele se levanta e todos correm em circulo e de costas. Vemos se agregarem a essa corrida rebobinada, um homem maltrapilho, que nos parece um mendigo. Ele e Eduardo param sentados no chão a frente do espaço eles parecem conversar, os Relógios ao fundo.

“_ Eu aceito!” – expõe o mendigo que parece chorar. – “Eu aceito esse Cristo!” – diz ainda erguendo muito alto a mão direita.
“_ Glória a Deus!” – festeja Eduardo, também chorando e abraçando o homem sujo. – “Você vai ver, tudo vai ser melhor!”.

Todos voltam a correr, agora para frente. Eduardo põe uma gravata que um dos relógios tira do bolso, e arruma o blusão por dentro das calças. O mendigo sai do giro e entram dois homens também de gravata, e uma mulher que logo conheceremos bem. Ela se chama Érica, na opinião de Eduardo a mulher mais linda que ele já viu na vida. Os relógios abandonam o espaço, e então o giro logo desacelera, os três homens param a frente conversando, Érica vem do fundo do palco trazendo uma prancheta com papeis para Eduardo assinar – ele se mostra perplexo com a beleza e sensualidade dessa mulher.

“_ Limpa a baba, cara.” – sussurra um dos amigos para Eduardo enquanto Érica se aproxima.
“_ Sr. Antonio, Sr. Eduardo, boa tarde! Tenho alguns documentos pra vocês assinarem.” – disse a mulher complementando sua beleza com uma graciosa simpatia. “_ Para a liberação ‘daquele dinheiro’, dos ‘associados’.” – expõe a moça como quem não quer dar muitos detalhes de alguma coisa já tratada, mas que não deve ser posto a público.
“_ Ah! É claro, se eles não recebem, eu também não recebo o meu, né!” – relatou Antonio em tom de brincadeira que parecia deixar mais comprometedor ainda o tom da conversa.
“Sim, é claro.” – concordou Eduardo meio sem graça pela presença da desconhecida intrigante moça, e mais ainda e pela situação que ela parecia já conhecer.
“_ Não sei se você conhece, mas essa é a Srta. Érica, nossa nova secretária. Dona Sônia se aposentou e indicou Érica pro seu lugar.” – explicou Antonio enquanto assinava os papeis.
“_ Prazer Érica.” – disse Eduardo lhe estendendo a mão.
“_ O prazer é todo meu Sr. Eduardo. Ouvi falar muito bem do senhor.” – disse a bela moça que lhe apertando a mão e se aproximou para romper as formalidades com os culturais três beijinhos cariocas. Eduardo sentiu algo estranho um pouco abaixo do umbigo, e apesar daqueles bizarros papeis assinados pelo amigo Eduardo, tinha haver mesmo com Érica; por isso, sabia que aquilo que sentia não era bem nervosismo.
Mesmo depois da saudação, Eduardo ainda não conseguia soltar a mão da moça, que também não a tomava de volta pra si. Uma estranha contemplação lhe tomava a face, que ruborizava. Seus olhos eram como enraizados de sol. Entretanto, por mais que seu corpo permanecesse ardendo, era certo, e ele sabia, aquela paixão o destruiria.
Um som crescente parecia saltar de seu peito, e no desenrolar desse ritmo pareciam surgir outras pessoas no espaço – essas ainda adequadas aquele espaço de trabalho. Elas se movem lentamente. Tudo parece congelado no ar, e com o acentuar das batidas ouvimos o romper, luzes coloridas acompanham as açoitadas dos sons fortes de uma música mixada.
Surpreendentemente outras pessoas mais invadem o espaço – não é mais o escritório. Alguém propôs e Eduardo aceitou sai com o pessoal do trabalho naquela mesma sexta-feira. Antonio era o proponente de tal aventura, eles eram amigos desde o início da época da faculdade de economia; logo se tornaram amigos, e mesmo que envolvidos de maneira diferente com suas igrejas e Deus conversavam muito sobre essas coisas – sendo o tempo um grande ajustador dessa amizade. Os dois eram homens sérios e muito bem respeitados em seus espaços de trabalho. Eduardo tinha um temperamento um tanto explosivo e impaciente com o que lhe parecia errado, e ele achava que isso era imutável, pois vinha do período que seus pais brigavam muito, ainda antes de se separarem. Mas profissionalmente era muito responsável e disciplinado, o que lhe ajudava aprender rápido e de maneira eficiente, serviços complicados – sendo justamente isso o que ajudou Antonio a lhe conseguir um estágio na empresa em que trabalhava. Já esse outro pouco falava sobre a família que parecia ser rica e distante – ele mesmo era sempre calmo e muito apurado no falar. No entanto algo foi claro desde o início, ele sempre queria ser o melhor, e era, no trabalho, nos namoros, na família e até com os amigos.  “Parecer sempre perfeito”, isso o motiva a ir pra frente, mas também lhe trazia medo de permanecer preso às pessoas e aos fantasmas de possíveis fracassos.
Sem dúvidas essa amizade ajudou os dois a avançarem muito em suas próprias vidas, e esse era um dos motivos, além de Érica, para não negar sair com o amigo e o pessoal do trabalho. Eles eram um para o outro um tipo de companhia que se podia contar para tudo, e Eduardo já precisara dessa ajuda muitas vezes, que sem desculpas nunca faltou. Antonio amava tanto a Eduardo que nem sabia como lhe contar.





[i] Os diálogos que compõem essa cena foram construídos com base em referências teológicas sobre batalha espirituais nas lógicas neo-testamentais, ou seja, que consideram as transformações decorrentes do sacrifico de Cristo na Cruz. Batalhas sobre forças que não nos impedem de falar e ter contato direto com Deus (como as descritas no livro de Daniel), mas sim de querer se entregar e sustentar o compromisso com Ele, pois com o sacrifício da cruz, o véu se rasga e temos o Espírito Santo para interceder por nós. Então o diabo agora disposto em nos impedir de crer e escolher amar um Deus totalmente acessível por uma entrega nossa, que nada mais é do que um reflexo da entrega de seu Filho por nós. Também foram tomadas como base, algumas indicações literárias do livro “Cartas do diabo ao seu aprendiz”, de C. S. Lewsi.
[ii] Desde o “pecado original”, todos nasceram como pecadores e se continua uma genealogia marcada pelo primeiro erro. O profeta Isaias nos disse que pelo desvio havíamos sido destituídos da Glória de Deus. Mas também, em Samuel, Jeremias e nos próprios discípulos vemos outros casos marcados tanto pela promessa como pela própria vinda do “segundo Adão”, o Cristo. As condições nas quais nascemos fazem parte dos planos de Deus para quilo que Ele deseja que sejamos. Poderíamos dizer: Não se trata de um Deus escrevendo em linhas tortas, mas de uma caligrafia feita em corpos e almas, torcidos; vidas paradas postas nas mãos de um Deus movente.

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