sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte II)

– Primeiro movimento –
Começando pelo Fim[i]




Como caracóis, os homens se arrastam por sobres as coisas, e as contemplam até se tornarem como elas: objetos de uso. Vazios de si, esperados de alguém que possa lhes atribuir função; assim pelo fazer, eles acham descobrir quem são de verdade. Seriam os homens chorados de um vazio que eles mesmos criaram? Não sei dizer ao certo, mas creio que toda confusão aconteça porque eles não se lembram mais que esse lugar o qual lutam tanto para preencher é o altar de um Deus que mora antes mesmo daquilo que eles costumam chamar de Deus. Infelizmente até se concluir isso, muitas coisas são postas ali nesse espaço desamparado, e mesmo nada lhe cabendo tão bem, insistimos em deixar algumas coisas por lá; elas crescem a ponto de acharmos que tem o mesmo tamanho de Deus – isso mesmo, atribuímos com o valor de Deus, coisas que insuficientemente nos preenchem e fazemos isso porque ainda não entendermos o que é ser inteirado de Deus.
Dizem que essa confusão se ilumina frente à consciência da necessidade de nos humilharmos. Desconhecidos de Deus, achamos demasiado forte aquilo que nos afasta do seu amor, e assim demonstramos não conhecer seu amor em Verdade. Esquecemos-nos que arrependimento e fé não vêm de nós mesmos, “por que Deus amou o mundo de tal maneira que” até nos é difícil, com acreditar com nossas mentes humanas. Por isso insistimos em humilhar as coisas dizendo que elas nos afastam de Deus e novamente nos esquecemos que somos antes delas o lugar da transformação. A humilhação do corpo não é nem nunca foi algo necessário a Deus, mas aos muitos "eus" que inventamos para nos vestir – Deus sempre falou do coração, de subjugarmos nossas carnalidades aos domínios de Seu governo.
Como caracóis, nos arrastamos por sobre as coisas e as contemplamos até nos tornarmos como elas, então nos percebemos, nos reconhecemos pelos olhos do Espírito, homens de impuros lábios habitados do mesmo[ii]. Então, um mesmo fazer se resignifica; somos transvalorados pelo Espírito de Deus. E quanto a isto não ha dúvidas: pessoas que conhecem o sabor do chão como processos de busca rendição se movem nas lógicas do impossível: descem para subir – como o próprio Cristo fez. Mas Eduardo não estava ali na busca de nada além de si mesmo, uma busca que o levara a se encontrar com a profundidade de seu próprio vazio; nada daquilo, se aproximava de perto, do tamanho de Deus. Esse homem, envolvido de escuridão e das palavras duras de sua própria consciência, é matéria final do abandono; no seu interior só lhe restavam lembranças cobertas de limo – e o pior é que ele nem sabia se as tinha por experiência ou por invenção.
Seu corpo fraqueja, seus músculos se desarmam aos poucos, ele sabe que vai cair, mas não como controlar isso, seu corpo resiste e por isso treme, ele luta por algum tempo, mas enfim seus joelhos se desarmam, a gravidade lhe força; entretanto outra força lhe sustenta. Dois homens fortes de roupas sérias rompem o espaço em direção a Eduardo, e o seguram quase no ar. Na força desse ímpeto de avanço, os dois homens agarram Eduardo pelos braços e o arrastam brevemente, logo o lançando do outro lado do palco; o impacto do corpo ao chão lhe faz vomitar. Junto com eles vem luz suficiente para iluminar o palco. Vemos um terceiro homem de baixa estatura, simples, mas formalmente vertido, resguardado na agressiva dupla.
“—Seu merda, desgraçado, filho da...”  – interrompe o homem a si mesmo, tomado de nojo e desdém pelo homem caído, surrado e ainda vomitando. Virando o rosto e tomando ar em uma região não afetada pelo mau cheiro de Eduardo o homem prossegue com veemência. “—E vê se não aparece nunca mais por aqui! Seu merda, corno!”.
            Os três algozes abandonam Eduardo e o espaço, ambos transformados pela violência e pelas marcas feitas no corpo, caído e agonizante, que enfim se encontra vertiginosamente lúcido, acordado em sua própria dor. Caído da ponte sem apoio que ele mesmo construiu, o homem parecia se esforçar para levantar, mas um misto de medo e insegurança o lembrava que há muito tempo ele não tinha compromisso algum com qualquer postura de elevação. Ele ainda ria um choro confuso; ria de si mesmo.
Outras gargalhadas influíram sobre sua dor. Um grupo de jovens festivos, agitados em suas bebidas recortava o espaço. Parecia que carregavam aos seus redores outro estado de gravidade, um ar denso – víamos com clareza, o tumulto que os atravessava, eles se entornavam em desordens. Eram como muitos Eduardos já na enunciação de suas quedas. Esse pareceu, em meio a sua dor, se agradar do grupo, pois parecendo tonto e espacialmente desnorteado, o homem estende as mãos em direção a eles como quem desejasse se juntar, mas não há efeito. A procissão desarranjada, bem representada e mostrada de seus estandartes etílicos, passa ignorando completamente a presença de qualquer homem caído, seja Eduardo ou cada um deles mesmos; e assim, como chegaram, na escuridão do palco, eles se vão. Rapidamente um deles volta, um rapaz se dirige ao homem caído, ele se põe de frente para Eduardo e de costa para nós, por alguns instantes ele parece contemplar toda aquela miséria, talvez sem saber o que fazer. Até que vemos ele se abaixar e começar a mexer naquele corpo maltrapilho. Eduardo está de olhos abertos, mas sem forças, pouco reage. Todo esse agitar é de repente interrompido, o jovem parece ter encontrado o que queria do outro; ele lhe tira a carteira do bolso de Eduardo, se põe novamente de pé, retira todo dinheiro que ali ainda restava, sabermos ser muito, pois vemos quando ele o guarda no seu bolso de trás das calças. Por fim, o rapaz devolve, jogada com força, a carteira “limpa” daquele que ele achava ser, diferente dele, um otário; o ganho é de bastante contento, mas ainda não parecia o suficiente. Olhando para um lado e outro, pelo modo de se mover de seus braços, vemos que ele parecia mexer em alguma coisa na cintura, a frente do corpo. Então, logo vemos um jato de qualquer liquido amarelo caindo sobre Eduardo, que a princípio parece com dificuldade tentar desviar. Mas por fim, sem força alguma, ele fecha os olhos e se deixa humilhar. Terminando, o rapaz corre, ainda rindo e agitando alguma coisa frente às calças, logo sumindo nas bordas escuras do palco. Vemos todo esse rastro de deslimite escorrido pelo chão onde, mergulhado no forte odor dessa miséria, está Eduardo, que chorava uma contorção interior muito dolorosa, ele estava tomado da consciência de estar sendo apagado do mundo, seu valor confirmava-se em nada valer. Só lhe restava então, suspirar, fechar os olhos e cavar tão fundo para dentro de si mesmo, parecia crer que talvez pudesse achar um pouco de esperança enquanto tudo se perdia. Nada naquele instante de tempo lhe parecia admirável. Nós já sabíamos, mas enfim ele via, sua vida escorria a meio fio.
E no horizonte da sua mente uma ilusão, ou iluminação, lhe passa a existir. Eduardo se lembrava, retrospectivamente, do mundo e de si, e num fio puxado da memória, toda renda da consciência se desfazia, na aurora da sua imaginação mais uma chance estava sendo lhe dada; um Deus que ele só conhecia pelas medidas de suas faltas o amava, e mais uma vez caminhava em sua direção – ali no fundo do buraco dos seus olhos Deus refaria o mundo, e Eduardo o saberia não mais de palavras mortas. Foi quando a noite se carregou nas bordas das suas vistas; do escuro do palco ouvimos o crescente de um som oco e preciso como de ponteiros, relógios.
Eduardo é indiferente. Essas forças do espaço não lhe atingem, pois é ele mesmo o motivo desse devaneio. Mas nós, se olharmos para as margens fundas e escuras do palco, veremos brotando da profundidade do som dois homens vestidos de tempo, projeções dos pedaços partidos da consciência do homem. Como movimentos ágeis e precisos chegam trazendo as nossas vistas feixes de luz que parecem costurar o espaço – são as redes do tempo, as tranças dos acontecimentos que se desfaziam. Logo circulam Eduardo como se analisassem os fatos, a situação. Balançam a cabeça enfaticamente, e bem sabemos que eles o fazem em sinal de reprovação. Assim permanecem fazendo por algum tempo, até que seguidos de um estalar de palmas, eles decidem agir; um deles corre em direção ao homem caído, lhe toma o corpo do chão e o arrasta até uma elegante cadeira que o outro prontamente traz, esse outro parece ter mais outra grande idéia, puxa o outro para novamente para um pontos escuros do palco. Logo os vemos trazendo uma suntuosa e grande moldura, um espelho sem aço que permite total visão. Observamos nas pretensões de um público resguardado no escuro da platéia, oportunamente sonhamos um sonho alheio; pelo vidro embaçado Eduardo se reconhecia e nos eram permitidas as imagens surgidas desse retorno que se projetavam frente aos seus olhos. Como um álbum de fotos visto de trás para frente, o homem via rejuvenescer a si mesmo, o país e seus acontecimentos – principalmente os marcos de sua aparente vida com Deus. Sua vida antes escorrida, então retornava para seu corpo como algo derramado que regressa para o pote, um corpo que se recompõe no súbito retorno que sua mente fazia. Eduardo contempla, estarrecido, as inversões de sua vida vivida, enquanto os homens vestidos de tempo tiram suas roupas rasgadas e limpam seu rosto sujo, o fazendo retomar forma, compondo nas junturas de suas imagens um retorno ao antigo homem.
No desvanecer das imagens, os desmedidos Relógios (como chamaremos esses homens vestidos de tempo) levantam Eduardo o colocando de pé frente ao espelho, ele se observa e nós o observamos por trás do seu fazer. Com urgência no fazer os Relógios retiram a moldura da frente do homem, trazer sua a cadeira para beira desse palco, o colocando de pé sobre ela. Seus olhos são preenchidos de admiração em direção a platéia escura, pois eles não olham como se vissem qualquer teatro apagado, eles fazem como se vissem todas as coisas ao mesmo tempo. Na loucura daquela ilusão, eles estão à beira do mundo no instante de sua criação e só lhes restava contemplar em silêncio, que era belo. E assim se fez por sete dias, até que um dos Relógios rompeu em reclamar.

“—No principio era o movimento.” – afirmou convictamente apontando para o horizonte. “—E o Espírito de Deus dançava sobe a face das águas. Não havia repouso porque o movimento não parava. A pausa era apenas a ilusão de uma imagem muito cansada que vocês homens tiveram do Espírito que dançava.” – explicou demonstrando desdém à figura humana. “—Com gestos precisos ele costurava o mundo. Misturavam-se os mapas, reunia-se o espaço, unificava-se o tempo. Não havia ainda tempo estendido, nada de passado ou futuro, apenas um presente que parecia estar em toda parte, para sempre, ao mesmo tempo. O tempo todo.” – elucidou complementando toda a suas fala de movimentos precisos de corpo.
“—E lá vinha o homem, a coroa da criação.” – diz o outro Relógio transbordado de sarcasmos. “—Conhecedor e amigo do próprio Deus-Bailarino que a Tudo fez com seus poderosos gestos de voz. Coitado! Na novidade de ter os pés sobre um universo recém criado, o homem erguia-se, querendo o equilíbrio. Seu corpo não era mais do que um campo de forças atravessado por mil correntes, tensões.” – diz simulando andar sobre as alturas de uma longa corda bamba. “—Esses eram os rastros de movimento de um Deus criador que ainda estava no meio dele; invisível. Pela primeira vez o homem olhava nos olhos de Deus, e a cada entardecer novamente Deus e o homem se encontravam para se conhecer. A vida transbordava!”
“—Mas o homem teve dúvidas, medo.” – diz encenando uma sínica cara de espanto.
“—Medinho!” – caçoam os dois juntos enquanto falseiam tremelique e se riem.
“—O homem não via motivos na mudança: Pra que se mover? Ele queria parar, dominar a si mesmo e aos seus irmãos. Buscaram então um ponto de apoio. Uma espécie de parapeito conta esse tumulto que abalava seus ossos e sua carne.” – explica a o Relógio no tom de busca que exigia sua fala. “– E no desejo de conhecer o poder o homem fez, em certa tarde: ele não compareceu ao encontro com Deus. mas Deus não desistiu.
“—Deus perguntou...” – complementou rapidamente o outro Relógio.
“—Onde você está?” – diz uma voz grave vinda do ar fazendo os dois Relógios olhar para o alto.
“—E respondeu o homem...” – continuou o Relógio que antes falava.
“– Ouvi seus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi!” – grita Eduardo com o peso de ser, naquele instante de sua mente, ele mesmo todos os homens ao mesmo tempo.
Um breve silêncio tomou a todos, até que um dos Relógios irrompeu.
“—E com isso veio a invenção de não mais precisar conviver com Deus, a segurança de só experimentá-lo por palavras. Então, num relâmpago, combinaram sons e vocês fizeram nascer uma Palavra morta.” – diz tentando segurar o riso, demonstrando estar admirado da idiotice dessa idéia. “– Uma língua que nada queria dizer. Uma língua feita para esconder, para vestir o corpo nu daqueles que tem medo de se encontrarem, de repente, cara a cara com um Deus Vivo.”
“—Aquele que não decide paga o preço para se encontrar com Deus, faz porque não suporta a imposição da transformação, o constrangimento do Espírito!” – gritam os Relógios em uma repugnância uníssona. Enquanto Eduardo tendo a cabeça baixa, os ouve ao longe como uma voz vinda de um canto qualquer de sua interioridade. Mas eles falam agora, também, para escondida platéia sobre a qual vemos cresce levemente um pouco de luz.
“—Desde a morte do Cristo, o sacrifício é espiritual. Não tem nada haver com cantar ou dançar, não tem nada haver com sentir, nada haver com sentir, tem haver com testificar, e isso quem faz é o Espírito de Deus. sem Ele continuamos no mesmo blábláblá de repetirmos como papagaios: ‘Sim, Senhor!’ ou ‘Eis-me aqui!’” – caçoa fazendo o sinal da cruz frente ao corpo.
“—Vida com Deus tem haver com Cristo, não há outro caminho: crer e ser salvo, buscar e encontrar, obedecer porque o verbo que conjuga o Amor a Deus, é obedecer, não é adorar!”
“—O amamos naquilo que o obedecemos e só por isso o adoramos! Nunca foi o inverso!” – diz altivo como se dissesse algo óbvio.
“—Mas eu os aviso, aquele que caminha com Deus logo será tomado pela falta de equilíbrio no espaço do seu próprio corpo de homem; fica parecendo que tudo gira.” – ridiculariza o Relógio fingindo estar tonto. “– Isso é a consciência dos lugares altos, dos lugares de Deus.”
“—É como perceber que antes sempre se teve a cabeça oca.” – diz tentando segurar o riso. “— O homem se acha esvaziado pelo medo, ele percebe que tudo que sabe é só informação sobre Deus; ele precisa conhecê-lo. Deixar de ser aquilo que confortavelmente está sendo, se parecer mais com o Cristo!” – insiste duramente esse Relógio em sua fala. “– E é nesse instante que mora a escolha. Em algum lugar antes do desmaio, seguido de morte, e então da Vida que verdadeiramente importa.” – diz se colocando bem a beira do palco.
“—Saltar ou não saltar? Jesus ou não-Jesus?” – conclui o outro Relógio seguido de uma pausa que nos permitia ver em seus olhares o ecoar dessa mesma pergunta.
“—Então prestem atenção!” – intensamente afirmam os dois Relógios em uníssono. – “Nisto se faz a vertigem dos homens: se por diante de Deus, elevar-se na consciência de seu amor e abandoná-lo por medo de ter que mudar!”
“—Abandoná-lo por medinho de não ser mais o mesmo!” – zomba um deles.
            “—Por medo de ter que morrer para si!” – gritam os Relógios, ao mesmo que com um peteleco, lançam Eduardo para fora do palco, para frente, para baixo. Mergulhados em deboches e gargalhadas eles tentam continuar.
“—É nesse instante!” – diz apontando para baixo.
“—Nesse momento!” – continua o outro. “—O homem retoma o seu corpo neste momento preciso em que perde o seu equilíbrio e se arrisca a cair no vazio aparente.” – diz olhando ara baixo como se Eduardo ainda estivesse caindo. “— Quando se lança no escuro ele se lembra: o movimento de Deus é a fé. E na queda de seus medos o homem luta, jogando tudo por tudo.”
“— Está em jogo a sua vida,” – rapidamente continua o outro – “a sua liberdade de Homem, a sua própria luz e tudo que ele inventou para se esconder de Deus. Por cima do abismo, aquele que escolhe crer, não teme, e mesmo se tontear, não volta atrás, mas se lança. Esse homem, não de coragem, mas de fé, sabe bem o Deus que o tem/sabe bem o Deus que tem/conhece bem o seu Deus.” – diz com satisfação.
“—Sabe bem o Deus que o tem!” – enfatizam juntos como quem acabasse de dizer bem tudo que tinha para falar; eles sustentavam essa impressão na elevação do olhar, no leve sorriso que abriam, mas principalmente no silêncio que enfim insistiam.
“—Mas essa não deve ser uma decisão do próprio homem?” – diz um Relógio para o outro percebendo que não deveriam ter forçado Eduardo a pular. Eles fazem como que vão pular na água, tampam o nariz e se lançam a frente do palco para ajudar o homem a subir de volta, o levando deitado ao centro do palco. Os Relógios continuam a brincar, fingem fazer “primeiros socorros” no homem, ele não reage, então eles o sentam e lhe acordam com um tapa na cara. Batem as mãos no ar como quem alcança o objetivo. Deixando Eduardo ali, acordando, e num pique rápido eles saltam para começar a correr de costa enquanto anunciam.
“—Esse homem que vemos caído é Eduardo. Ele é um, mas também é todos nós em um só. Ele acha que conhece a Deus, mas porque ele ainda é o mesmo, sabemos que não conhece nada!”.
“—Mas nem sempre foi assim.” – completa o outro Relógio. “Ele já quis Deus de verdade, ele decidiu, chorou e levantou as mãos. Mas isso não é o suficiente, não somos nós que escolhemos, mas Deus quem faz!”.
“—Vamos ver como foi isso!” – declaram os dois. “—Como esse homem caído, imaginou estar de pé.” – e nesse instante eles param a corrida bruscamente, saltam com força e descem como se quisessem afundar os pés no chão; Eduardo, no centro, sente o impacto logo se colocando de pé em um pequeno soluço, mas ainda tonto. Estão todos parados e de pé. Os Relógios começam a bater palmas em uma cadencia bem espaçada, eles lentamente caminham de costa, e como os joelhos levemente flexionados fazem como se estivessem pegando impulso para correr. O ritmo das palmas aumenta e com eles essa caminhada de costas. Mais e mais até correm rebobinadamente, eles voltam no tempo; querem mostrar ao homem e cada um de nós o tempo do primeiro amor. E em meio a essa cômica corrida de retorno vemos Eduardo sorrir, eles se lembrava daquele calor dentro do peito, ele se lembrava daquela sensação de estar sob a luz, ele se lembrava, então, de uma época em que podia falar com Deus.





[i] Algumas falas dessa cena são compostas de trecho na integra ou referenciados nas obras do Livro de “Gêneses” escrito por Moisés e na obra “Movimento Total” de José Gil.
[ii] Cf. Isaías 6 – A visão de Isaias e seu chamamento.

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