sexta-feira, 6 de setembro de 2013

VERTIGINE HOMINUM _ a vertigem dos homens (Parte V)

Quarto movimento
– A vida do outro lado do espelho –


Muitos amigados do Evangelho de Cristo se achegam pelo medo de quem realmente são, desejam o plano maravilhoso de Deus para suas vidas tanto quanto ao próprio Deus. E por quanto se puder imaginar a tensão dos homens, ainda muito pouco se compreenderá sobre os seus medos; nem eles mesmos os conhecem, pois inventaram um mundo inteiro para se privar de olhar cada um em seus próprios olhos. E de todas as idéias que tentam escapar desse engano vemos a veemência do discurso sobre a coragem. Esse é sem dúvidas um artifício de nossa humanidade para sobrepormos nossas próprias limitações em nome de um desejo tornado em obstinação. Mas a sobreposição de medos, por si só, não é avanço algum na direção consciente de Deus, é só distanciamento de nós mesmo, um modo de assumirmos nossa constante diferença e instabilidade; um passo de avanço que pode ser dado para qualquer direção, inclusive para trás.
Chega a um momento da vida adulta em que a consciência de que somos incluídos por muitos mundos nos toma para uma densa trama de negociações – e quem tiver sido criado nos limites de igrejas fechadas em palavras ocas, acaba por entrar em desvantagem nesse jogo. Descobre-se, primeiro, que nem tudo é religião, existem muitos outros pontos de vista menos rígidos como os da igreja; existe muita gente sendo feliz em outros lugares, são “tementes”, não negam a Deus, e são corajosos em não se envolverem nos pesados predicados da religião. Depois, maravilha-se com as palavras cheias de vigor ditas pelo mundo, muitos nunca ouviram tanta coerência entre vida e fala nas igrejas de onde vieram; e nisto muitos são ganhos: na negação das igrejas em reconhecer que as palavras do próprio Cristo só eram cheias da Vida, porque falavam de um Deus experimentado – nas qualidades de homem, de Deus despido de Glória, ele buscou conhecer ao Pai e se alimentar de sua vontade.
Mesmo para o Cristo se tratou de escolha e permanência, ele resistiu para nos colocar de frente para a possibilidade de também suportarmos. Aqueles que já estiveram com Deus sabem bem disso, e na crença de se fazerem “justos” na "coragem" de assumir seu desejo, mesmo assim eles ainda são cautelosos – comem o infinito como quem come farinha, com cuidado para não respirar muito forte e ver todo o futuro que tanto desejam se espalhar pelo ar. Esse é mais uma vez o caso do nosso ator principal, ele degusta prazerosamente a ideia de ter total domínio sobre si. Eduardo não entendia que a liberdade de sua escolha nascia da consciência de onde ele iria se ater. Ele escolheu se afixar a si mesmo, se prender na luta pelo preenchimento de tudo que lhe faltava – achava se conhecer de próprios olhos, mas era cego e não sabia.

Os Relógios finalmente demonstram alguma reação ao casal apaixonado a frente do palco, e se juntam a eles os levando a uma dança que nada mais é do que a maquinagem do tempo que escorria por entre as escolhas daquele apaixonado par. O primeiro movimento importante nessa ciranda é o de Eduardo e Érica correndo, como quem brincam, segurando garrafas de bebida na mão. Um dos Relógios tira uma grade toalha de piquenique do boldo onde antes o tecido parecia ser apena um lenço quadriculado, ele estende no chão um pouco distante de onde eles estão. As imagens de um parque movimentado se projetam sobre eles. O casal logo é levado a se sentarem no quadriculado desse espaço no chão, eles riem um sorriso que no rosto de Érica aos poucos se desfaz, ela aparenta chateação, eles parecem discutir. Ela tem a cabeça baixa, até que o rapaz a toca no ombro com ternura e lhe sorri, ela sorri de volta e eles se abraçam. Nesse mesmo abraço, Eduardo leva o corpo de Érica a se deitar no chão, ele debruça seu tronco sobre o dela. As projeções que os sobrepõem se tornam de carros avançados em uma movimentada via escura, e entre essas luzes vemos um letreiro dito: Motel. Todas as luzes, então dão lugar a um lençol de escuridão que cobre o palco, mas que sem demora se vai como uma nuvem passageira frente ao sol. Eduardo e Érica então em pontos diferentes do palco, ela veste um lindo vestido florido que lhe expõe os joelhos, seu rodado se ajusta bem ao tronco valorizando o belo busto da moça, e ele usa camiseta com calça jeans e um sapatênis, seu jeito despojado encantava Érica, que, orgulhosamente, já tinha influenciado em muito seu modo de vestir (ela sempre dizia que não havia graça nenhuma e homens perfeitos, “Se fossem prontos,” – ela caçoava com as amigas – “que função nós teríamos na vida deles?”).
Eles se aproximam, ela lhe fixa os olhos e circula levemente as mãos sobre a barriga, que parece diferente. O rosto de Eduardo que sorria dá lugar uma expressão de susto, mas isso não dura muito tempo, pois dando uma volta rápida no espaço o homem gargalha com as mãos na cabeça, não se contendo de felicidade. Sem comemorações demoradas, Eduardo se volta para moça, e de joelho a sua frente beijar sua barriga. Um dos Relógios se aproxima tirando uma pequena caixa de jóia do bolso e a colocando sobre a mão aberta do rapaz que e então a oferece aberta para Érica; agora ela se assusta. Sacode as mãos e eufórica lacrimeja dando pequenos saltinhos no mesmo lugar; como quem parece segurar as lágrimas ela estende a mão em sinal de aceite, ele lhe põe o anel na mão direita. Sem demora, um dos relógios lhe coloca uma grinalda enquanto o outro lhe traz outra aliança que ela coloca na mão esquerda de Eduardo, e em seguida ele troca o anel da mão direita para a esquerda de Érica. Ele beija sua testa, ela sorri e pula no seu colo. Ele a gira pelo palco, o som das suas gargalhadas enche o lugar.
Subitamente Érica sai do colo do rapaz tirando a grinalda e lançando-a longe. Empurra com muita força o marido para distante dela. Movida de raiva tira a aliança do dedo e joga sobre o homem, que permanece se controlando. Já não há mais imagem alguma se projetando sobre eles, apenas uma luz muito fraca que ilumina parte do palco. Podemos ver os Relógios, assustados com os gritos, se retirarem para observarem escondidos nessa parte não iluminada do palco.
            “_ Seu merda, será que você não entende?” – esbravejou Érica como um bicho. “_ Depois de tudo, quem não quer sou eu!”. – disse deixando o marido ver todo ódio que brilhava em seus olhos.
A raiva serrava a boca e os olhos de Eduardo, quando só uma respiração cansada lhe fez uma pequena abertura, víamos escorrer dali todo silêncio que lhe envolvia o coração – logo as palavras chegariam até os lábios aparentemente descontraídos.
            “_ É sempre assim, eu falo e você fica ai quieto!” – avançou Érica com a voz e o corpo. “_ Agora, eu sou a maluca que ta inventando historia, e você o bonzinho!” – disse e aquietou-se esperando alguma resposta. “_ diz alguma coisa. Seu merda, fala!” – insistiu de vez, enquanto socava os peitos do marido que permanecia fechado como uma pedra.
Até que ele lhe segurou a mão. Olhou nos olhos dela como quem tem duas laminas no lugar dos olhos; nesse instante ela já a dispersava e não tinha porque continuar calado.
“_ Sua vagabunda! O que mais você quer, eu não te dei tudo? Eu não estou aqui?” – berrou Eduardo que de tão possuído de raiva lhe lançava Palavras e salivas; ele a sacudia como quem quisesse que a ficha caísse em uma maquina emperrada.
“_ Tudo o que?” – ela berrou como que quisesse ser escutada pelo mundo. “_ Você não é homem, seu merda! E aquele seu amiguinho escroto, pensa que eu não vejo como ele te olha!” – insinuo maldosamente sobre um assunto que Eduardo conhecia, mas nunca quis se dedicar. “_ Você não é homem! Você não me sacia!” – gritou ainda mais alto, com desdém público de seu marido. Ainda segui em gargalhada, desesperadas e leves por ter dito o que pensava poder feri-lo.
“_ Quando eu tinha dinheiro pra bancar seus caprichos, ai sim, eu era homem!” – gritou a ponte de lhe descer com força a mão espalmada que já estava erguida no ar.
“_ Homem de verdade é uma coisa que você nunca foi!” – ela diz ali, debaixo da mão estendida, lhe penetrando um rosto cheio de desprezo e coragem. “_ Você é igual ao seu pai, um fracassado! Nunca foi homem suficiente para mim!” – riu se distanciando. “_ Você era só uma oportunidade de crescer na vida! Nem sei se eu já te amei de verdade!”
“_ Como é?” – indagou Eduardo finalmente assumindo o sentido daquilo que ele soube desde o primeiro instante.
“_ Você não entendeu, meu filho? Você é corno!” – insinuou a moça apontando para a própria barriga enquanto sustentava no rosto uma sínica expressão de dúvida.
“_ Sua vagabunda!” – rugiu Eduardo em direção a esposa sem menor cautela com sua situação. Ele lha agarrou pelos braços, os torcendo e nessa força a arrastou por pouco metros para trás; em uma das mãos concentrou todo seu ódio e deixou tudo descarregar em uma grande tapa no rosto de Érica. Ela foi lançada para longe, a víamos caída com as mãos na barriga gemendo não só pela bofetada, mas pelo recebimento de toda a raiva que ela mesma plantou no marido.
“_ Seu covarde! Tá vendo o que você fez! Merda!” – diz voltando-se para si e ainda contorcendo de dor. “_ Liga pra alguém! Faz alguma coisa!” - berra a mulher para o marido que sem reação obedece.

A luz lhes é tomada. Vemos a silueta de Eduardo tentando levantar Érica em meio a toda escuridão que eles mesmos produziram. E ainda observamos surgir sobre suas cabeças às imagens de uma ultrassonografia, ouvimos o coração desse bebê. Escutamos rapidamente o crescer e apagar dos sons de uma sirene. Seguimos reconhecendo a voz de um homem falando em meio ao escuro.
“_ Sr. Eduardo? Você é o Eduardo que estava acompanhando as Sr. Érica, correto? Felizmente,” – pausa a voz em um suspiro – “sua esposa está bem. Mas seu filho não resistiu. Meus pêsames!”
Brevemente as luzes se abrem e vemos Érica cruzar o palco segurando malas. Eduardo a observa atônito, e com ela as luzes novamente se vão.

“_ Obrigado Deus,” – diz o homem para o céu com sarcasmo – “pelos seus planos maravilhosos na minha vida! Valeu!” – diz saindo do espaço. “Mas que merda de vida!”

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