Quarto movimento
– A vida do outro lado do espelho –
Muitos amigados do Evangelho de Cristo
se achegam pelo medo de quem realmente são, desejam o plano maravilhoso de Deus
para suas vidas tanto quanto ao próprio Deus. E por quanto se puder imaginar a
tensão dos homens, ainda muito pouco se compreenderá sobre os seus medos; nem eles
mesmos os conhecem, pois inventaram um mundo inteiro para se privar de olhar
cada um em seus próprios olhos. E de todas as idéias que tentam escapar desse
engano vemos a veemência do discurso sobre a coragem. Esse é sem dúvidas um artifício
de nossa humanidade para sobrepormos nossas próprias limitações em nome de um
desejo tornado em obstinação. Mas a sobreposição de medos, por si só, não é
avanço algum na direção consciente de Deus, é só distanciamento de nós mesmo,
um modo de assumirmos nossa constante diferença e instabilidade; um passo de
avanço que pode ser dado para qualquer direção, inclusive para trás.
Chega a um momento da vida adulta em que
a consciência de que somos incluídos por
muitos mundos nos toma para uma densa trama de negociações – e quem tiver
sido criado nos limites de igrejas
fechadas em palavras ocas, acaba por entrar em desvantagem nesse jogo. Descobre-se,
primeiro, que nem tudo é religião, existem muitos outros pontos de vista menos rígidos como os da igreja; existe muita gente
sendo feliz em outros lugares, são “tementes”, não negam a Deus, e são
corajosos em não se envolverem nos pesados predicados da religião. Depois,
maravilha-se com as palavras cheias de vigor ditas pelo mundo, muitos nunca
ouviram tanta coerência entre vida e fala
nas igrejas de onde vieram; e nisto muitos são ganhos: na negação das igrejas
em reconhecer que as palavras do próprio Cristo só eram cheias da Vida, porque
falavam de um Deus experimentado – nas qualidades de homem, de Deus despido de
Glória, ele buscou conhecer ao Pai e se alimentar de sua vontade.
Mesmo para o Cristo se tratou de escolha e
permanência, ele resistiu para nos colocar de frente para a possibilidade de
também suportarmos. Aqueles que já estiveram com Deus sabem bem disso, e na
crença de se fazerem “justos” na "coragem" de assumir seu desejo, mesmo
assim eles ainda são cautelosos – comem o infinito como quem come farinha, com
cuidado para não respirar muito forte e ver todo o futuro que tanto desejam se espalhar
pelo ar. Esse é mais uma vez o caso do nosso ator principal, ele degusta
prazerosamente a ideia de ter total domínio sobre si. Eduardo não entendia que
a liberdade de sua escolha nascia da consciência de onde ele iria se ater. Ele
escolheu se afixar a si mesmo, se prender na luta pelo preenchimento de tudo
que lhe faltava – achava se conhecer de próprios olhos, mas era cego e não
sabia.
Os Relógios finalmente demonstram alguma reação ao
casal apaixonado a frente do palco, e se juntam a eles os levando a uma dança
que nada mais é do que a maquinagem do
tempo que escorria por entre as escolhas daquele apaixonado par. O primeiro
movimento importante nessa ciranda é o de Eduardo e Érica correndo, como quem
brincam, segurando garrafas de bebida na mão. Um dos Relógios tira uma grade
toalha de piquenique do boldo onde antes o tecido parecia ser apena um lenço
quadriculado, ele estende no chão um pouco distante de onde eles estão. As
imagens de um parque movimentado se projetam sobre eles. O casal logo é levado a
se sentarem no quadriculado desse espaço no chão, eles riem um sorriso que no
rosto de Érica aos poucos se desfaz, ela aparenta chateação, eles parecem
discutir. Ela tem a cabeça baixa, até que o rapaz a toca no ombro com ternura e
lhe sorri, ela sorri de volta e eles se abraçam. Nesse mesmo abraço, Eduardo
leva o corpo de Érica a se deitar no chão, ele debruça seu tronco sobre o dela.
As projeções que os sobrepõem se tornam de carros avançados em uma movimentada
via escura, e entre essas luzes vemos um letreiro dito: Motel. Todas as luzes,
então dão lugar a um lençol de escuridão que cobre o palco, mas que sem demora
se vai como uma nuvem passageira frente ao sol. Eduardo e Érica então em pontos
diferentes do palco, ela veste um lindo vestido florido que lhe expõe os
joelhos, seu rodado se ajusta bem ao tronco valorizando o belo busto da moça, e
ele usa camiseta com calça jeans e um sapatênis, seu jeito despojado encantava
Érica, que, orgulhosamente, já tinha influenciado em muito seu modo de vestir
(ela sempre dizia que não havia graça nenhuma e homens perfeitos, “Se fossem
prontos,” – ela caçoava com as amigas – “que função nós teríamos na vida
deles?”).
Eles se aproximam, ela lhe fixa os olhos e circula
levemente as mãos sobre a barriga, que parece diferente. O rosto de Eduardo que
sorria dá lugar uma expressão de susto, mas isso não dura muito tempo, pois dando
uma volta rápida no espaço o homem gargalha com as mãos na cabeça, não se
contendo de felicidade. Sem comemorações demoradas, Eduardo se volta para moça,
e de joelho a sua frente beijar sua barriga. Um dos Relógios se aproxima tirando
uma pequena caixa de jóia do bolso e a colocando sobre a mão aberta do rapaz
que e então a oferece aberta para Érica; agora ela se assusta. Sacode as mãos e
eufórica lacrimeja dando pequenos saltinhos no mesmo lugar; como quem parece
segurar as lágrimas ela estende a mão em sinal de aceite, ele lhe põe o anel na
mão direita. Sem demora, um dos relógios lhe coloca uma grinalda enquanto o
outro lhe traz outra aliança que ela coloca na mão esquerda de Eduardo, e em
seguida ele troca o anel da mão direita para a esquerda de Érica. Ele beija sua
testa, ela sorri e pula no seu colo. Ele a gira pelo palco, o som das suas
gargalhadas enche o lugar.
Subitamente Érica sai do colo do rapaz tirando a
grinalda e lançando-a longe. Empurra com muita força o marido para distante
dela. Movida de raiva tira a aliança do dedo e joga sobre o homem, que
permanece se controlando. Já não há mais imagem alguma se projetando sobre
eles, apenas uma luz muito fraca que ilumina parte do palco. Podemos ver os Relógios,
assustados com os gritos, se retirarem para observarem escondidos nessa parte
não iluminada do palco.
“_ Seu merda, será que você não
entende?” – esbravejou Érica como um bicho. “_ Depois de tudo, quem não quer
sou eu!”. – disse deixando o marido ver todo ódio que brilhava em seus olhos.
A raiva serrava a boca e os olhos de Eduardo,
quando só uma respiração cansada lhe fez uma pequena abertura, víamos escorrer
dali todo silêncio que lhe envolvia o coração – logo as palavras chegariam até
os lábios aparentemente descontraídos.
“_ É sempre assim, eu falo e você
fica ai quieto!” – avançou Érica com a voz e o corpo. “_ Agora, eu sou a maluca
que ta inventando historia, e você o bonzinho!” – disse e aquietou-se esperando
alguma resposta. “_ diz alguma coisa. Seu merda, fala!” – insistiu de vez,
enquanto socava os peitos do marido que permanecia fechado como uma pedra.
Até que ele lhe segurou a mão. Olhou
nos olhos dela como quem tem duas laminas no lugar dos olhos; nesse instante
ela já a dispersava e não tinha porque continuar calado.
“_ Sua vagabunda! O que mais você
quer, eu não te dei tudo? Eu não estou aqui?” – berrou Eduardo que de tão
possuído de raiva lhe lançava Palavras e salivas; ele a sacudia como quem
quisesse que a ficha caísse em uma maquina emperrada.
“_ Tudo o que?” – ela berrou como que
quisesse ser escutada pelo mundo. “_ Você não é homem, seu merda! E aquele seu
amiguinho escroto, pensa que eu não vejo como ele te olha!” – insinuo
maldosamente sobre um assunto que Eduardo conhecia, mas nunca quis se dedicar.
“_ Você não é homem! Você não me sacia!” – gritou ainda mais alto, com desdém
público de seu marido. Ainda segui em gargalhada, desesperadas e leves por ter
dito o que pensava poder feri-lo.
“_ Quando eu tinha dinheiro pra bancar
seus caprichos, ai sim, eu era homem!” – gritou a ponte de lhe descer com força
a mão espalmada que já estava erguida no ar.
“_ Homem de verdade é uma coisa que você
nunca foi!” – ela diz ali, debaixo da mão estendida, lhe penetrando um rosto
cheio de desprezo e coragem. “_ Você é igual ao seu pai, um fracassado! Nunca
foi homem suficiente para mim!” – riu se distanciando. “_ Você era só uma
oportunidade de crescer na vida! Nem sei se eu já te amei de verdade!”
“_ Como é?” – indagou Eduardo finalmente
assumindo o sentido daquilo que ele soube desde o primeiro instante.
“_ Você não entendeu, meu filho? Você
é corno!” – insinuou a moça apontando para a própria barriga enquanto
sustentava no rosto uma sínica expressão de dúvida.
“_ Sua vagabunda!” – rugiu Eduardo em
direção a esposa sem menor cautela com sua situação. Ele lha agarrou pelos
braços, os torcendo e nessa força a arrastou por pouco metros para trás; em uma
das mãos concentrou todo seu ódio e deixou tudo descarregar em uma grande tapa
no rosto de Érica. Ela foi lançada para longe, a víamos caída com as mãos na
barriga gemendo não só pela bofetada, mas pelo recebimento de toda a raiva que
ela mesma plantou no marido.
“_ Seu covarde! Tá vendo o que você
fez! Merda!” – diz voltando-se para si e ainda contorcendo de dor. “_ Liga pra
alguém! Faz alguma coisa!” - berra a mulher para o marido que sem reação
obedece.
A luz lhes é tomada. Vemos a silueta
de Eduardo tentando levantar Érica em meio a toda escuridão que eles mesmos
produziram. E ainda observamos surgir sobre suas cabeças às imagens de uma
ultrassonografia, ouvimos o coração desse bebê. Escutamos rapidamente o crescer
e apagar dos sons de uma sirene. Seguimos reconhecendo a voz de um homem
falando em meio ao escuro.
“_ Sr. Eduardo? Você é o Eduardo que
estava acompanhando as Sr. Érica, correto? Felizmente,” – pausa a voz em um
suspiro – “sua esposa está bem. Mas seu filho não resistiu. Meus pêsames!”
Brevemente as luzes se abrem e vemos
Érica cruzar o palco segurando malas. Eduardo a observa atônito, e com ela as
luzes novamente se vão.
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